As Relações Perigosas

Esse é um daqueles livros que têm uma aura, uma reputação: a de ser uma leitura “proibida”. Lançado em 1782, logo se tornou um sucesso por conter aquilo que as pessoas mais gostam, mas que raramente confessam: sexo e fofoca. 
Mas ficar só no sexo e na fofoca é perder muito do livro. Esse é um livro sobre o lado mais sórdido das pessoas. Mostra como a falta de escrúpulos, moral e crueldade podem ser hobby e, se praticado com diligencia, se tornar uma arte.
A história se passa na França no período pré-revolução e é uma coletânea de cartas trocadas pela Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont. Nessas cartas eles desenvolvem uma espécie de “torneio” em que seduziam e abandonavam amantes. Os que se torna flagrante (e o que gerou revolta dos nobres e deleite dos plebeus) é que os personagens estão obviamente entediados e precisam se distrair. Eles acreditam piamente que ser parte da nobreza os coloca num patamar diferente das “pessoas comuns” e que é prerrogativa deles fazer o que fazem. A nobreza é retratada como fútil, vil, sem moral e sem ética, movida apenas pela luxúria e diversão.
Tanto a Marquesa de Merteuil, quando o Visconde de Valmont são vistos na sociedade como figuras exemplares, símbolos do que é mais fino e nobre. Porém, são (utilizando as sagradas escrituras) “sepulcros caiados”: toda aquela ideia de moral e retidão esconde a decadência desses mesmos ideais. É o suprassumo da hipocrisia e a ideia que a maioria das pessoas da época tinham da nobreza (e que as pessoas de hoje tem das “elites” da sociedade).
Mas o mais interessante é o fato de que um dos imorais movido pela luxúria é uma mulher. Numa época em que mulheres aparentemente não apreciavam o sexo e que deveriam ser a imagem do ideal de virtude e retidão, a Marquesa é uma mulher com pulsão sexual, que abertamente se deleita em seduzir e obviamente gosta de sexo. Isso é, de certa forma, uma modernidade que provavelmente só será visto, na literatura, quase dois séculos depois.
O fato de o livro ser estruturado em cartas não torna a leitura fácil (pelo menos para mim). A narrativa fica obviamente fragmentada. Eu, particularmente, não tenho sofisticação suficiente para narrativas fragmentadas, mas a curiosidade em saber até que ponto os personagens principais podem descer na escala da “cafajestagem” me fez ir adiante. Se fosse uma história menos “suculenta” (como eu disse, sexo e intriga sempre prendem a atenção), e se não fosse tão realisticamente escrito, eu tinha desistido da leitura.

Essa reedição ainda tem o charme de ter a tradução feita por Carlos Drummond de Andrade o que torna esse um clássico que realmente merece ser lido.

As Relações Perigosas
Autor: Choderlos de Lacios
Tradução: Carlos Drummond de Andrade
Editora Biblioteca Azul/ Globo
520pp.

3 comentários em “As Relações Perigosas

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