Teorema Katherine, O – John Green

O-Teorema-Katherine Katherine XIX ainda não era exatamente a XIX quando eles saíram juntos, sozinhos, pela terceira vez. Embora os sinais parecessem favoráveis, ele não poderia simplesmente perguntar a ela se queria namorá-lo, e certamente não poderia  simplesmente aproximar seu rosto do dela e beijá-la. Com frequência Colin vacilava quando se tratava da hora do beijo. Ele tinha uma teoria a esse respeito, na verdade, intitulada Teoria da Minimização da Rejeição (TMR):
O ato de aproximar o rosto para beijar alguém, ou de perguntar se pode beijar alguém, carrega o risco da probabilidade de rejeição; assim, a pessoa menos propensa a ser rejeitada deveria fazer a aproximação do rosto ou a pergunta. E essa pessoa, pelo menos em relacionamentos heterossexuais no ensino médio, definitivamente é a garota. Pensem bem: Garotos,basicamente, querem beijar garotas. Os meninos querem beijar, abraçar, apalpar.Sempre. Tirando Hassan, raramente acontece de um garoto pensar algo como “Hmmm, acho que prefiro não beijar hoje.” Talvez, se um cara estiver pegando fogo, literalmente, não vá pensar em dar uns pegas. Mas só nesse caso. Ao passo que as garotas são bastante inconstantes quando se trata desse negócio de beijo. Às vezes elas querem dar uns pegas, às vezes não. Elas são uma fortaleza impenetrável de incognoscibilidade, na verdade.
Logo: as garotas deveriam sempre tomar a iniciativa, porque (a ) elas são, em geral, menos propensas a serem rejeitadas que os garotos, e (b ) dessa forma elas nunca serão beijadas, a menos que queiram.
Infelizmente para Colin, não há nada lógico no negócio do beijo e, por causa disso, sua teoria nunca funcionou. Mas por ele ter sempre esperado um tempo tão inacreditavelmente grande para beijar uma garota,raramente teve de lidar com a rejeição.
pág. 103
Não sei se os graduados leitores do blog tem essa impressão, mas uma reflexão muito forte acompanha minhas resoluções pós-faculdade (sou formado desde 2009), que é o fato de pouca coisa sobrar na memória, mas algumas aulas na Faculdade de Letras não morrerão na minha memória pois construíram minha base crítica. Da faculdade mesmo 90% já está no sótão empoeirado de minha cuca, preciso que algum texto antigo me desperte para algumas coisas. Entretanto quando fui apresentado ao conceito de quadrado semiótico, a leitura de Valise de Cronópio, o desafio de Luckács, ou quando  descobri que Machado e Guimarães se inspiraram até demais em Xavier de Maister e Goethe respectivamente, me parecem aulas que aconteceram ontem. Uma das mais inesquecíveis foi com a Prof.ª Andrea Saad que me ensinou a analisar um poema de acordo com o que sentia na primeira leitura, para aí identificar os elementos constitutivos de sua forma. Isso eu faço até hoje não só com poemas, mas com romances, filmes, e qualquer tipo de narrativa.
Não sei se minha ex-Prof.ª gostaria de se ver citada numa análise de John Green, mas essa ideia do sentimento que abre uma porta para um complexidade formal é uma via de mão dupla, pois você pode dedicar sua vida analisando determinado autor ou obra, mas você o faz pelo sentimento menos acadêmico de todos: gostar pelo simples fato de gostar. No fundo o que faz um Joyce ser preterido à um Proust, um Drummond à Bandeira, Saramago à Antunes está mais relacionado a algo que pode não ser necessariamente explicado. Uma vez que todos esses tem um nível técnico, quando analisados friamente, muito similar. E como gostei imensamente desse livro, apesar de não ver nenhuma genialidade ou  inovação na narrativa, acabei caindo nessa encruzilhada interessante. Mas calma lá com isso, quem é John Green para estar em tão incrível companhia?

Calma lá vocês… não levem ao pé da letra minhas introduções, entre um Joyce e um Green existe ainda um mundo de diferença, assim com há entre um filme de ação coreano (Oldboy) e um existencialista russo (O Sacrifício), apesar de serem todos orientais para nós. Sou contra comparar coisas distintas, pois isso nunca vai oferecer um padrão justo de análise (outra aula, agora de Literatura Comparada), basta ver uma discussão sem sentido como a do Oscar de Melhor Atriz esse ano… mas divago. John Green é um dos melhores autores juvenis da sua geração e em comparação a uma Cecily Von Ziegasar (Gossip Girl) ele é um monstro da literatura.
Isso mesmo: J-U-V-E-N-I-L. E foi por isso que eu resolvi ler um livro dele, e já foi uma das melhores experiências deste ano. Sempre que construí acervos de literatura juvenil tive o nome de Green como referência entre os autores cujo o conteúdo era notoriamente interessante e original, mas desde que seu último livro, A Culpa é das Estrelas se tornou um best-seller no Brasil e no mundo, sua produção passada além de ganhar as merecidas traduções, ganharam o rótulo de literatura adulta, ou somente literatura. Nada contra a alcunha, mas acho engraçado ver como se um livro juvenil ganha reconhecimento crítico ele evoluiu à la Pokémon para o panteão dos “livros sérios” e eu sou um entusiasta da literatura juvenil uma vez que eu tenho certeza que para mim foi o momento da vida que comecei a gostar do mundo da ficção por meio das palavras. Contudo fazer essa discussão só conhecendo Green na teoria é um erro, então na primeira oportunidade que tive para dar um tempo e ler algo leve fui atrás do escritor norte-americano.
E aí? Além de ser a introdução mais longa que você já escreveu, o que é o Teorema Katherine? Basicamente seria um teorema que explica a previsibilidade de um relacionamento, por meio de várias equações para determinar quando ele terminará a partir do que ele começa. E isso também muito me interessa… O narrador, Colin Singleton, parece um anti-galã saído dos filmes de Woody Allen, ele é um ex-menino prodígio que foi dispensado por sua 19ª namorada, cuja o nome é Katherine, assim como o das outras 18 que a antecederam. Alguns tem fetiches por pés (o que acho estranho), outros por coloração capilar (o que eu entendo), mas Colin tem um fixação linguística pela combinação de nove letras específicas (o que é loucura, mas incrivelmente funciona bem no romance) que não pode ser Katerine ou Catarina, e sim pela maneira que assim está grafada.
É bem louco em minha idade que alguém tenha tido 19 namoradas chamadas Katherine, ou até mesmo ter tido 19 namoradas, uma vez que essa palavra cai cada dia mais em desuso, mas é ainda mais surreal que Colin seja na verdade um menino em suas 18 primaveras prestes a entrar na faculdade. Arrasado mais uma vez pelo amor não correspondido, sendo que este foi seu namoro mais longo, ele faz a única coisa que um jovem normal faria… caí na estrada com seu melhor amigo, Hassan, para tentar se reencontrar e começa a elaborar seu teorema sobre relacionamentos.
Uma história bem surreal e um road trip de superação. Lindo…mas não é. Uma das coisas mais interessantes deste livro é que esse resumo pode parecer um a história improvável, mas o autor mascara bem a bizarrice da história em sua construção e principalmente investindo nos personagens principais, que nada tem de raso. Se Colin passa a ideia de ser um gênio a princípio ao ponto de elaborar um teorema, ele na verdade não gosta de matemática. Seu único dom nato é construir anagramas e decorar coisas com facilidade, como ele mesmo explica, ele foi um prodígio, mas não é há algum tempo e está cada vez mais se tornando normal aos olhos dos outros. Hassan é um menino árabe e não esconde o medo de adentrar no interior dos Estados Unidos por conta do preconceito pós 9/11. Colin é egoísta/narcisista e não vai mudar sua personalidade com a jornada, Hassan começa a beber e está numa jornada de libertação. E quando finalmente descobrimos todas as Katherines, descobrimos que namoro é uma palavra forte para algumas delas e que esse “fetiche linguístico” é na verdade um trauma que a primeira Katherine e seu relacionamento de 10 minutos provocou em um menino de oito anos.
Há muita profundidade no livro em seus detalhes e personagens, e como Green subverte algumas noções, pois a apesar de apresentar claramente uma estrutura de road trip, o livro abandona essa ideia logo uma vez que eles param e ficam na primeira cidade que aportam, em Gutshot. Em uma cena tragicômica, eles conhecem uma garota chamada Lindsey e sua mãe Hollis, que dirige a maior fábrica de cordinhas de absorventes da cidade e é responsável pelo desenvolvimento econômico da cidade. Hollis oferece um emprego temporário aos dois, para documentar a história da cidade e a partir daí que o romance engrena em discutir cada vez mais não só as várias faces do amor, mas o desenvolvimento de três jovens em se tornar adultos. E isso não é só a face amorosa, mas a face social e comportamental que se desenvolve nessa idade de transição. Os três protagonistas estão perdidos na vida, se Colin está acabado com o amor, Hassan está tentando viver uma adolescência eterna sem se preocupar com faculdade, serviço e outras coisas, que por ser mais velhos que Colin ele já deveria estar fazendo.
E Lindsey, a terceira protagonista, vive a típica confusão de identidade de uma menina que consegue ser tudo: a garota popular, a menina inteligente e a menina punk-louca, mas que no fundo quer estar sozinha pois não se encaixa em lugar algum. Somente finge que está com alguma turma, com as pessoas da cidade, ela é simpática e fala “caipirez”, com o namorado ela é fútil e com Colin se mostra uma oponente a altura quando o assunto é saber coisas estranhas. Ela é ainda mais interessante que os dois protagonistas masculinos e obviamente sua função no livro é balançar essa onda destrutiva de Katherines que assombram Colin.
Sim, meus caros leitores, no macro a história não é inesquecível, e em certos pontos é até previsível, sendo que seu final pode até soar piegas. Mas como estudo e construção de personagens, o romancista faz um romance melhor que muitos outros “adultos” por aí e a insere dentro da história todos os tipos de temas que refletem e reverberam nessa fase de transição do jovem para o adulto. E ainda tem uma forma que utiliza elipses no tempo e notas de rodapé para complexificar de maneira formal a estrutura do romance.
Apesar de várias teorias e teses que já vi na Faculdade sobre o que separa o conto da novela, e a novela do romance, nenhuma é mais simples do que a pura e simples extensão da narrativa. Pode parecer um simplificação, mas um conto não ultrapassa 40 páginas, uma novela 80 e um romance é ao infinito é além. Haverão as zonas cinzas que resistem a classificação, mas no todo é muito simples pensar assim A literatura juvenil também, pois  o que a difere da adulta e simplesmente a quem se destina. Green escreve sobre temas que são muito mais interessantes aos jovens do que a adultos, logicamente é uma história interessante, bem escrita e gostosa de ler. Mas eu posso usar esses mesmos adjetivos para o Shel Silverstein e o Umberto Eco, pois essa é uma característica dos grandes escritores.
E adorei o livro, muito mais pela sensação de nostalgia e profunda identificação com o personagem de Colin, que não é meu gêmeo, vide que nunca fui prodígio, mas algumas características e neuroses são bem reconhecidas por estes colunista aqui. E volto ao ponto de início, é o melhor livro do ano? Para mim estará na lista do fim de ano pela grande identificação com o protagonista. Na parte crítica é um livro que tem alguns defeitos, mas no todo é muito bom. Minha birra com classificação é muito mais por uma depreciação que literatura juvenil por vezes passa, mas indico o livro a qualquer um acima de 15 anos, pois é uma história divertida, leve e bem construída. Vale a leitura.

O Teorema Katherine
Autor: John Green
Tradução: Renata Pettengill
Editora Intrínseca
304 pgs

3 comentários em “Teorema Katherine, O – John Green

  1. Rafael, gostei muito de tudo o que você disse aí. “Da faculdade mesmo 90% já está no sótão empoeirado de minha cuca” hahaha me enxerguei muito nesse seu pensamento.
    Sobre o livro, O Teorema Katherine foi minha primeira (e única até o momento) experiência com John Green; muito boa experiência, por sinal. Achei o enredo relativamente simples, os personagens são o verdadeiro destaque.
    Acho que essa depreciação e mesmo preconceito em relação à literatura juvenil acontece, em parte, por causa de como o gênero tem crescido nos últimos anos. Há muita coisa boa, como também muita coisa ruim (assim como em qualquer gênero literário). Muita coisa ruim acaba passando por boa, também.
    Ainda estou na curiosidade em relação ao A Culpa é das Estrelas. Vamos ver se ainda o leio num futuro próximo.

    Um beijo, Livro Lab

  2. Aline,
    (enquanto o Menezes não aparece por aqui)
    Eu recomendo o A Culpa é das Estrelas! Esperei o rebuliço passar e tentei ler sem ser influenciada. E fui surpreendida. é um livro bonito. Claro que tem defeitos. Mas no geral é bem bonito 🙂

    Engraçado, comecei a ler o Teorema… e não curti muito. Lembro que gostei muito do Hassan, é um personagem bem engraçado. Mas o personagem principal me irritou um tantinho…

    Ameiii o texto <3
    bjsss, Ju

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