[Achados do sebo #3] + Colaborador



Por: Clara Taveira
Desde os 3 anos de idade eu sou apaixonadíssima por gibis da Turma da Mônica. Lembro que economizava cada centavo da minha enoooorme mesada (cinco reais por mês, nem um centavo a mais) para comprar gibis mais baratinhos no sebo Academia do Saber, no Centro do Rio de Janeiro. Aos 10 anos minha coleção ultrapassava 400 gibis (416 em outubro de 2001, para ser mais exata.), além dos Almanacões, Gibizinhos, Especiais de Natal, Coleções Um Tema Só, etc. Quando alguém me perguntava o que eu faria com tantos gibis quando ficasse velha, eu respondia sem hesitar: “Darei para meus filhos, ora!”
Só que nem sempre o raio da vida é como a gente quer, não é? Eis que, aos 15 anos, a situação em casa apertou e nos mudamos para um apartamento de tamanho incompatível com meus mais de 700 gibis (não, nem depois de velha burra eu parei de comprar. Aliás, compro até hoje). Me vi (fuck the ênclise) obrigada a me desfazer dos meus amadinhos. Minha mãe, que na época colecionava revistas de arquitetura e decoração e também teria que vender todas, disse que era assim mesmo, que depois compraríamos outros gibis e que aquelas vacas magras eram só uma fase. Isso não diminuiu o apertinho no peito que eu senti, mas já me deu um certo ânimo. Eram só gibis, certo? Eu poderia comprar outros quando eu crescesse e ficasse ryca (coisas que ainda estou esperando acontecer). Dei aquela estufadona no peito, típica de adolescente que se acha adulto e falei “É verdade! Pode vender tudo!”

Só que eis que eu olho pra dentro da caixa de papelão e vejo um gibi de capa meio verde, com meu nome escrito numa letra garrunchuda de criança de uns 4 ou 5 anos. Ai, meu corassaum, gente! Aquele gibi era meu numa época em que eu nem sabia escrever direito! Não, esse fica! E esse aqui. E mais esses outros sessenta. Pronto, só isso, pode vender o resto!! Ah não, espera, os autografados pelo Mauricio de Sousa! Pronto, agora sim!
Quando o moço do sebo (que na verdade nem era um sebo, era um antiquário) foi buscar a caixa, eu estava na escola, dividida entre uma sensação de tristeza e euforia. Afinal, na minha cabeça, o cara ia me dar uns 300 reais pelos 700 gibis, né? Só que não. Ao chegar em casa vejo um cheque em cima da mesa. Oba, estou rica. Ou não. DOZE REAIS? O CARA COMPROU MEUS 700 GIBIS POR DOZE REAIS? Sim, ele comprou, gente. E minha mãe, não vendo opção, aceitou.
Mas tudo bem, minha gente! Ao menos tenho alguns gibis, e, principalmente aquele em que eu escrevi meu nome numa letra garranchud…Ai, caceta, cadê meu gibi??
-MÃE, CADÊ AQUELE GIBI DE CAPA VERDE?”
-Aquele rasgadinho? Foi vendido, ué. Ele não tava na pilha dos que você separou, tava jogado num cantinho…
E foi assim que a vida da minha mãe acabou.
Mentira, não vivo sem ela. Mas chorei rios, lágrimas másculas de adolescente que se acha adulta, mas chorei. Até procurei o tal do antiquário onde o cabra lá trabalhava, mas quem disse que achei ele ou o gibi?
Um belo, lindo, sensual, gostoso, amado e incrível dia, enquanto eu passeava pelas ruas belas, lindas, sensuais, gostosas, amadas e incríveis de Juiz de Fora, onde morava na época, encontrei uma loja de CDs e DVDs usados. Achei simpática e entrei. Escolhi uns filmes da Disney, uns CDs e continuei olhando a loja. Eis que descubro que a loja tem um sebo nos fundos, super escuro e mofado, mas até que simpático também. Peguei uns livros, me interessei por umas revistas, mas nada demais. Eis que vejo uma cesta cheia de gibis velhos. Puxei alguns e comentei com meu amigo que tinha todos aqueles, na época das vacas mais cheinhas. Sorri ao ver algumas capas, folheei algumas revistinhas, e me recordei daquele gibi de capa verde, com meu nome escrito em letra garranchuda. Eu já sabia que nunca ia encontrar ele de novo, e já estava crescidinha demais pra ligar pra besteiras assim.
De repente eu vejo… um livro show de bola que eu estava querendo há séculos! Nossa, que legal! Entrei numa loja de CDs, encontro DVDs baratinhos e ainda descobri um sebo novo na cidade! Fui pagar, porque, né?, se deixasse eu passava o dia todo lá. Saí da escuridão do sebo e me dirigi pro caixa, que ficava perto da porta da loja. Parei ao lado de uma cesta cheia de revistas Capricho, Claudia, gibis do Pato Donald, do Mickey, um gibi de capa verde com meu nome escrito com letra garranchuda, algumas revistas da abril e… OI? MEU GIBI!!! MORRI!

Agora me diz: quer coisa mais amada do que um sebo? Um lugar que vende material de leitura usado, amado/odiado por preços simplórios? Um lugar onde você não escolhe os livros, eles te escolhem? Um lugar onde coisas lindas e piegas assim podem acontecer? Não, gente, não existe loja mais amada do que um sebo, não que eu conheça. Sebos enriquecem, ajudam e unem as pessoas, mesmo sem querer. Meu noivo que o diga. Mas isso é causo para oooutra vez… 😉
Clara Taveira, professora, cabelereira de si mesma, troca a cor dos cabelos como quem troca de livro. Vlogueira no Capitu Já Leu?, junto de Raphael Pellegrini e Bob Taveira Pellegrini
PS: A Clara e o Raphael fizeram um vídeo sobre outros achados de sebos. Mais um monte de boas histórias (além de dicas para garimpar pelo Rio de Janeiro)
 

7 comentários em “[Achados do sebo #3] + Colaborador

  1. Vou te falar, vou fazer um trabalho satânico pra esse cara malvado que pagou só isso nos meus gibis! Hunf!
    Amei participar, seus lindos!! Mil beijos!!
    P.S.: Clara aqui. Fiquei com preguiça de logar no meu email, hahahaha <3

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