[Flip 2013] Diário de bordo: Sábado (dia 5/7)

Por: Juliana Leuenroth e Rafael Kalebe



foto: Juliana Leuenroth

Antes de começar a falar do sábado, precisamos voltar à sexta-feira, dia 4. Nem que tivéssemos nos esforçado muito teríamos conseguidos ingressos para a mesa que foi a mais concorrida desta edição da Flip: “Lendo Pessoa à beira-mar”, com Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli. Quem ainda não ouviu Bethânia recitando poemas, não sabe o que está perdendo. Até nós que não somos grandes entendidos e admiradores da arte, achamos incrível. Aí você junta uma especialista e tanto em Fernando Pessoa e o cenário perfeito. Andamos entre as tendas enquanto a mesa acontecia e só podemos definir o que aconteceu da seguinte forma: comoção total.

Por onde tivesse um telão, ou uma simples TV transmitindo a mesa, uma multidão se aglomerava para assistí-la. A dinâmica foi bem simples: Bethânia e Cleonice se alternaram para recitar poemas de Pessoa durante quase 1 hora. Depois, uma conversa sobre a importância do poeta na obra das duas, bem como na vida de leitoras. Uns dizem que foi a mesa mais “espetáculo” deste ano (o que poderia descaracterizar a ideia da Flip e tornar a discussão sobre leitura algo pasteurizado), outros dizem que foi a melhor mesa em muitos anos. Nãos sabemos se concordamos com o segundo grupo, afinal vimos só alguns momentos, mas com o primeiro grupo não há como concordar…

Agora de volta ao sábado! Tradicionalmente o dia com a programação mais apertada, com as mesas mais disputadas e com a cidade mais cheia… O plano é quase acampar ao lado das tendas e só sair de noite…

Foto: Rafel Kalebe

Mesa 11: “Maus hábitos”, com Nicolas Bher e Zuca Sardan, mediada por Francisco Alvin.
Ainda que como já dissemos anteriormente, a Flip tenha escolhido outros caminhos, a primeira mesa do sábado com toda a certeza foi uma grande surpresa.

A conversa teve um ar de improviso e o próprio Chico Alvim anunciou logo de cara que ele tinha esquecido as suas provocações em casa e que a conversa seria um bate-papo mais informal, com leitura da poesia de ambos (em diversos momentos, aliás).


Zuca Sardan, de 80 anos, fez parte do movimento da ‘turma do mimeógrafo’ dos anos 60/70 que revelou muitos poetas (a amizade com Chico Alvim vem dessa época), mas que demorou muito a ser reconhecida. De certa forma a Flip é um modo de corrigir essa demora ou mesmo de homenageá-lo. Nicolas Behr é de uma outra geração, mas que mantém um diálogo com o que estava sendo feito. Nasceu em Curitiba, mas se mudou para Brasilia e esse é o principal assunto de sua poesia.

Após a apresentação (meio confusa), ficou claro que a o tom da conversa seria o improviso e principalmente a irreverencia. Porque a cada leitura de poesia, ou mesmo respondendo às perguntas da plateia, o que marcava era o humor e principalmente a profunda ligação com a poesia. Um dos momentos de destaque foi quando Nicolas falava sobre as manifestações e a poesia, ao que ele levanta uma série de cartazes, para a alegria do público, com frases como: “A Poesia pede passagem grátis”, “A revolta do Poema não cabe no cartaz”, “O Brasil acordou e a poesia concordou”, entre outros.

Outro momento de Nicolas foi quando alguém da plateia pediu pra ele contar da “espinafrada’  que ele levou do Drummond. Aos 22 anos Nicolas foi para o Rio e encontrou o poeta e conta: “Porrada é mais importante para o poeta do que o elogio. Eu disse para o sr. Carlos que desejava ler paródias de poemas seus. Então levei um cruzado de esquerda quando ele disse: ‘Cuida da tua poesia, deixa a minha em paz'”. (trecho da fala de Nicolas copiado deste link)

Vale também dizer que a energia e a simpatia de Zuca foi contagiante.Mesmo que não tenha seguido uma linha comum, ou mesmo normal (em algum momento parecia uma coisa maluca e fora do controle) foi emocionante ver os 3 poetas em ação.

foto: Juliana Leuenroth

Mesa 12: “Encontro com Eduardo Coutinho”, mediada por Eduardo Escorel.
Ainda que a proposta da Flip 2013 fosse a de encontrar novos caminhos, a pergunta que ficou ao ver o nome do cineasta, Eduardo Coutinho na programação principal (no dia de mais destaque), era o porque dessa escolha.

Essa pergunta ficou ainda mais acentuada no começo da conversa, ao ver o próprio Coutinho afirmando que não escreve há muitos anos.
Mas ao vermos um pouco do método de trabalho do documentarista, com reproduções de trechos dos seus documentários, podemos afirmar com certeza: a narrativa presente em seus filmes é literatura.

Aparentando estar desconfortável no início, “está tudo errado. Estou do lado errado da câmera”, a conversa seguiu num tom informal, graças em parte ao mediador, Eduardo Scorel que já trabalhou muitas vezes com o cineasta e já conhece um pouco do temperamento aparentemente ranzinza de Coutinho.

A conversa foi marcada por frases memoráveis e seria quase impossível representar o que ela foi de verdade. Entre as “confissões”, Coutinho diz que tem o costume de arrancar as páginas dos livros que contenham trechos que o agrade (“O livro é muito pesado para carregar”).

Ao falar sobre o seu método de trabalho, ele destacou a a importância da narrativa: “Se você conta mal uma história, não faz cinema. Não pode ser chato, é essencial saber contar a história”, “Isso nada tem a ver com o caráter. Não precisar ser uma boa pessoa pra contar uma boa história”.

Coutinho afirma que o processo de narrativa vem com o amadurecimento e dá o exemplo da sua conduta durante as entrevistas, quando se deparava com o silêncio do entrevistado. “Antes eu estendia a mão e tentava tirar a pessoa desse sofrimento. Hoje eu fico em silêncio para ver como a pessoa sai desse sofrimento” (para dar o exemplo foi mostrado a cena final do seu documentário Peões).

Sobre as escolhas dos personagens para seus filmes, sua única regra é não entrevistar pessoas públicas. Ele sempre procura por personagens anônimos que tenham força (carisma). “As pessoas públicas vem armadas (as entrevistas) pois afirmam que tem algo a perder, os anonimas não tem nada a perder.”

Hemon (foto: Juliana Leuenroth)

Mesa 13: “O espelho da história”, com Aleksandar Hemon e Laurent Binet, mediada por Ángel Gurria-Quintana.
Para começar a conversa o mediador (nosso favorito da Flip) citou Saramago: “Tem história demais na ficção, mas falta ficção na história”. Os dois autores convidados apesar de muito similares em alguns pontos, mostraram que se utilizam de métodos diferentes e até existe certas discordâncias no método empregado de cada um deles. Explicamos: Os dois autores abordam temas históricos, mas com ‘pitadas’ de ficção.

Binet (foto: Juliana Leuenroth)

Enquanto Binet ao escrever o seu livro HHhH percebeu que contar a história verdadeira seria praticamente impossível, pela falta de detalhes históricos. Então ele decidiu que esta seria a grande problemática do livro: mostrar o dilema de um autor enquanto faz essas pesquisas. “É como o filme e o making off.”

Já Hemon comenta que o seu livro Projeto Lazarus, uma história real do assassinato de um imigrante bósnio que aconteceu há 200 anos em Chicago (em que há poucas informações sobre o assunto), é investigada por um personagem ficcional. “Como eu posso saber o que as pessoas sentiam há mais de 100 anos? Para conhecer a história é preciso da imaginação. É preciso saber se colocar na história.”

Porém Binet ressalta que ao se propor a fazer um “romance histórico” (termo colocado aqui por nossa conta, já que nenhum doas autores parece gostar desta classificação) dizer que tudo é ficção é um pouco perigoso no que toca a história, pois há fatos que não são questionados e que é preciso respeitá-los. Hemon concorda, mas diz que a imaginação que ele se refere é num nível muito básico, a partir do que sabemos, com base na experiência. E dá um exemplo: “A guerra apaga a memória”. As vítimas da guerra acabam por perder a identidade, ou mesmo por “desaparecer na história”, de certa forma essa “imaginação” dá vida a essas pessoas. Um exemplo disso são os bósnios. Após a guerra civil, Hemon conseguiu voltar à sua terra natal e foi atrás de sobreviventes, e foi ai que ele percebeu a necessidade que as pessoas tinham em contar suas próprias histórias (ou de familiares perdidos).

Binet concorda com Hemon, “A literatura é uma alternativa para lembrar de alguém. Porém a ficção deve ficar clara para os leitores e deve acrescentar algo à História”. Ele critica o livro As Benevolentes, de Jonathan Littel, que foi considerado um livro para se entender o que se passava na cabeça dos nazistas, mas é tudo ficção. Então, segundo Binet, não entramos em contato com o que os nazistas pensavam, mas com o que o autor do livro pensava que os nazistas pensavam.

Hemon afirma “a instabilidade na investigação é o que me atrai. Os grandes livros são aqueles que tentamos encontrar as repostas junto com os leitores”.

Uma das melhores mesas da Flip (se não a melhor).

foto: Ricardo Gaspar (site paraty.com.br)

Mesa 14: “Os limites da prosa”, com Lydia Davis e John Banville, mediada por Samuel Titan Jr.
A mesa que criou a maior expectativa da nossa parte, foi a maior decepção. Talvez por ter o seu primeiro livro no Brasil cercado de boas críticas e comentários sobre a inovação no seu modo de escrever, Lydya Davis e John Banville não conseguiram dialogar.

Boa parte dessa sensação foi pelo modo como a mesa foi conduzida. Quando comentamos da Flip com algumas pessoas, tentamos explicar como às vezes (quase sempre) o mediador da mesa é tão importante quanto os autores. Pode parecer exagero, mas a dinâmica é ditada por ele. Sempre que pensamos em uma boa mesa, o mediador teve um papel muito importante, que conseguiu unir os autores (de forma que eles dialoguem) ainda que tenham temas diferentes.

Também pode ter sido uma escolha ruim de curadoria, porque é difícil de conseguir ligar os dois autores, se pensarmos no tema da mesa, “Os limites da prosa”. Talvez fosse um tema para Lydia, não tão convencional, diferente de Banville. A dinâmica da mesa seguiu com perguntas alternadas sobre o método de trabalho de cada um deles.

Davis diz que escreve contos curtos com pouco desenvolvimento dos personagens e ações, mas mesmo com a narrativa tão breve, há um fio condutor (ela sugere que os leitores possam continuar a história). O que a autora procura é a diversividade de pontos de vista em seus contos, que pretendem ser fragmentos de uma história completa. Ela ainda conta que toma nota de coisas corriqueiras que lhe acontecem. Isso, de certa forma, ajuda no desenvolvimento das histórias. “Eu tento não me apavorar com a tela em branco para começar a escrever. Essas notas são contos em potencial que precisam ser lapidados.”

Banville acredita que o escritor deve seguir o seu estilo, pois algumas vezes a busca por um novo estilo pode acabar com o sentido daquilo que se pretende narrar. Sobre de onde vem as ideias para as narrativas, o autor afirma que é como perguntar de onde vem os sonhos. “Gosto de dizer que minha escrita é um sonho controlado.” Também afirma que gosta de ter dúvidas de como conduzir a narrativa, pois “a certeza absoluta só é possível em ditadores. A dúvida faz parte dos romances”. Sobre o narrador, Banville considera que a 3ª pessoa lhe parece muito elaborada. Já a 1ª pessoa parece mais infantil, mas ele acaba usando e gostando mais dela, pois é a sua visão do mundo.

Nas perguntas da platéia, alguém questionou Banville do porque dele escrever romances policiais (sob o pseudônimo de Benjamin Black). A reposta veio rápida e direta: “Porque eu preciso ganhar dinheiro. Mas é bom e prazeroso escrever esses livros. É mais leve”.

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