[Flip 2013] Diário de bordo: Domingo (dia 6/7)

Por Juliana Leuenroth e Rafael Kalebe

Domingo normalmente é um dia bem tranquilo em Paraty. Muita gente já está indo embora, outras estão ainda de ressaca da noite anterior (a mais impossível de se achar uma mesa de bar). Contrariando os outros anos, este domingo foi bem mais cheio que o normal e com uma programação variada pela cidade inteira.

Foto: Rafael Kalebe

Mesa 17: “Tragédias no microscópio”, com Daniel Galera e Jérôme Ferrari, medida por Noemi Jaffe.
Apesar das expectativas, foi uma mesa morna. Não sabemos muito bem o por quê. Afinal, os livros dos autores dialogam (Barba ensopada de sangue, de Galera e O sermão sobre a queda de Roma, de Ferrari). Talvez um dos motivos tenha sido o idioma. que pode ter travado um pouco a discussão. Ou ainda a ressaca da longa noite de sábado (a mesa aconteceu 12h).

Como ressalta a mediadora, Noemi Jaffe, ambos os livros se passam em cidades pequenas onde se desenrolam os ‘desastres’. Os dois autores tratam de cidades com as quais estão familiarizados: Ferrari passou boa parte de sua infância na Córsega e Galera viveu um tempo em Garopaba. Então ambos entendem e conseguem escrever com propriedade desses pequenos vilarejos.


Foto: Rafael Kalebe

“Uma vida anônima é totalmente banal, mas por uma acontecimento aleatório, mas pela forma como se conta a história, a pessoa pode tornar-se uma espécie de mito”, comenta Galera sobre o avô de seu personagem no Barba… . A história do livro acaba girando em torno do avô, no momento em que o personagem principal (e sem nome) descobre que ele vivia em Garopaba e foi assassinado em um baile da cidade, mas sem acharem o culpado e muito menos o corpo dele. Sua morte acabou virando uma dessas lendas urbanas que só parecem existir nas cidades pequenas.

Enquanto isso o livro de Jérôme também fala de ‘desastres’, mas como as coisas são efêmeras e usa como mote o discurso de Santo Agostinho sobre a Queda de Roma em que ele diz “O mundo é como o homem: ele nasce, cresce e morre”.

Sobre os personagens principais de seus livros, os autores encontram pequenas discordâncias. Galera afirma que seu personagem não está infeliz, mas está em busca do seu lugar. Já Ferrari comenta que concebeu seus personagens como vítimas dos seus desejos. Eles moravam em Paris e sonhavam em abrir um bar em Córsega, mas ao concretizar isso continuam infelizes: “Isso é mais trágico, realizar seus desejos e continuar infeliz”.

Mesa 19: ” A Arte do ensaio”,  com Geoff Dyer e John Jeremiah Sullivan, mediada por Paulo Roberto Pires.
Paulo Roberto Pires começa dizendo que “a arte do ensaio é a arte da curiosidade”. E depois define um pouco melhor o que seria esse gênero que ainda pode ser considerado novidade para muitos leitores, afinal é difícil classificá-lo e o Brasil ainda não tem uma grande tradição: é o texto que vai um pouco além do que se faz com o jornalismo diário, mas não chega a ser um texto acadêmico.

Dyer (Foto: Rafael Kalebe)

Dyer define ensaio como uma coisa muito básica: essa prática vem da escola quando fazemos anotações nas aulas e depois formulamos um texto. O ensaio seria, para ele um projeto contínuo de auto-educação. “Estou há 35 anos fazendo o dever de casa”.

Sullivan concorda. “Eu me informo sobre o que eu quero, é uma aprendizagem contínua.” O autor ainda comenta que a linguagem utilizada é um pouco mais solta, mais leve. Por essa razão os ensaios estão mais livres de julgamento, o que pode chamar a atenção dos leitores.

Sullivan (Foto: Rafael Kalebe)

Ainda sobre a aprendizagem ao se produzir um ensaio, Dyer afirma que fazer esse tipo especifico de texto sempre é uma jornada e o leitor acompanha esse processo de descoberta. Sullivan acrescenta que a ‘ignorância’ é importante, pois esta descoberta é o que torna o ensaio importante. “É como se o ensaísta sentasse ao seu lado”, em comparação com um contador de histórias.

Os autores são questionados por Pires se eles se utilizam de assuntos pessoais para produzirem seus textos. Dyer afirma que utilizou muitas coisas de sua infância, mas que nunca pensou nisso como uma autobiografia. “Me usar como objeto de pesquisa é uma espécie de experimentação”, pois ele se utiliza como fonte principal (mas fica a nossa pergunta de que até ponto isso pode ser confiável ou se torna ficção, o que deixa tudo ainda mais interessante). Sullivan diz que o ensaio às vezes pode ter mais liberdade que um texto de ficção, pois é a voz do autor (e não há os checadores de informação). “Você pode ir até o limite com a ficção e ainda contar a verdade”.

Foto: Juliana Leuenroth

Mesa 20: “Livro de cabeceira”, mediada por Liz Calder.
Normalmente não ficamos para essa mesa (o principal motivo é o cansaço), mas a ideia da Juliana poder fotografar mais dentro da tenda dos autores pareceu bem tentador. No fim das contas acabamos ficando o tempo todo e foi uma experiência muito interessante.

A dinâmica consiste (como o próprio nome diz) nos autores lendo trechos dos seus livros favoritos e explicando a sua importância. Entre os autores convidados estavam Tobias Wolff, Mamede Mustafá Jarouche, Lydia Davis, Laurent Binet, John Banville, Jérôme Ferrari e Daniel Galera.

A mediadora (e criadora da Flip) Liz Calder brincou com os autores que esses livros escolhidos deveriam ser livros que eles levariam para uma ilha deserta.

Daniel Galera começa lendo um trecho do livro As Nuvens do argentino Juan José Saer, que ele diz ser o seu autor argentino favorito;

Jérôme Ferrari falou sobre o livro Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, de Mathias Énard;

John Banville escolheu um ensaio de Ralph Wado Emerson, “Experience”, que fala sobre a América: “Hoje em dia está em moda falar mal da América, mas a América é um projeto de aventura”;

Apesar dos problemas de tradução (e fica aqui um reconhecimento pelo trabalho extraordinário dessas pessoas durantes as mesas), Laurent Binet leu um trecho de Vida e Destino, de Vasily Grossman, que ele considera um Guerra e Paz ambientado na Segunda Guerra. Difícil não relacionar o trecho lido com a forma com que ele pensa (HHhH é uma prova disso);

Lydia Davis após brincar que levaria o dicionário Oxford para a ilha deserta (pela grande número de descobertas que ela poderia fazer), lê um trecho do livro Hotel Mundo, de Ali Smith;

Mamede leu um trecho de A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, um autor que ele considera esquecido pelo grande público; e

Tobias Wolff brinca que trapaceou na sua escolha que foi o livro de contos de Tchekov: “como são mais de 500 contos, quando chegasse ao final já teria esquecido dos primeiros e poderia começar novamente”. E depois leu um trecho do conto “A dama do cachorrinho”.

Assim, num clima descontraído acabou a Flip 2013. Em agosto de 2014, tem mais!

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