Mulherzinhas “Vintage” : Romance de Época

Semana  especial de aniversário é o momento de terminar a série sobre “romances de mulherzinha”. E parabéns para todos nós!

O romance mulherzinha de época, também conhecido como romance histórico, é um dos tipos mais populares. Eles são preferencialmente ambientados entre os séculos XVII a XIX, na Inglaterra ou no “velho oeste” americano. Mas podem ser histórias em épocas mais remotas. Hannah Howell, por exemplo, escreveu uma série inteira ambientada na Escócia, em que clãs de homens altos fortes e vestindo kilts travam batalhas e se apaixonam em pleno século XV.

Temos os romances históricos clássicos escritos por Jane Austen e as Irmãs Brönté, que óbvio só podem ser considerados de época porque os lemos no século XXI, mas que eram “contemporâneos” quando foram escritos e lidos pelas mocinhas da época. Jane Austen ficou famosa por suas histórias que misturam um detalhado retrato dos costumes da “pequena nobreza” e romances bonitinhos. O que torna os livros dela gostosos de ler mesmo depois de mais de 100 anos é a fina ironia com que ela retrata os maneirismos e atitudes dessa pequena nobreza e a construção das personagens femininas (claro que alguém pode perguntar: mas e o Mr Darcy? Convenhamos que ele é uma exceção: os personagens masculinos são bem apagadinhos e só lembramos do Mr Darcy porque o Colin Firth é um lindo!). São as moças que fogem um pouco do que se espera de uma moça daquela época elas têm “personalidade” (menos Emma , ô mocinha chata!) e dentro das limitações impostas pela sociedade, elas encontram formas de seguir seus próprios caminhos. Outra coisa interessante nos romances de Austen é a construção do relacionamento. Como os casaizinhos da época não podem ficar de “saliências” antes do casamento, tudo o resta é conversar e eles travam verdadeiros duelos verbais.

Já as irmãs Brönté elevam o romance  a outro patamar:  eu gosto especialmente de Jane Eyre (que eu já resenhei  aqui).  Jane Eyre é uma moça “moderna”, que assim que atinge a maioridade decide o que quer para sua vida. Temos um personagem forte com o Sr Rochester  e reviravoltas que garantem que quem começar a ler o livro não irá parar até o final feliz.

Já no século XX temos Georgette Heyer e a primeira Grande Dama do romance mulherzinha: Barbara Cartland. Heyer foi bem famosa na época em que escrevia. Pesquisadora meticulosa, se correspondia com as fãs, com as quais também trocavam informações sobre a época em que ambientava seus livros. Ainda hoje tem uma legião de fãs que relêm seus livros. No Brasil eles são publicados Record. Ela segue a linha de Jane Austen, com personagens femininas mais marcantes e personagens masculinos quase como figurantes. Seus livros valem a pena pela reconstrução histórica precisa, tanto na descrição de modos e costumes, como no detalhamento de roupas e moveis de época.  Cartland ficou (mais) rica escrevendo romances históricos água-com-açúcar com jovenzinhas virgens e (literalmente) príncipes salvadores. Como ela própria fazia parte da realeza britânica (era parente distante de Lady Di), tinha certa propriedade em recriar e fazer “licenças poéticas” em seus textos. No Brasil, seus livros saíram principalmente pela Romances Nova Cultural, vendidos em banca.

Hoje em dia várias autoras escrevem romances históricos e mesmo aquelas que tradicionalmente escrevem outros tipos de romances vez ou outra escrevem um histórico. Nora Roberts, por exemplo, escreveu  Fora da lei, publicado no Brasil pela Harlequim. Linda Lael Miller escrever romances contemporâneos ambientados no Texas, mas também escreve sobre os cowboys do séculos passados com o mesmo entusiasmo, também publicada pela Harlequim só que no formato de bolso e vendidos em banca de jornal. Aliás, a série “Clássicos Históricos” da Harlequin tem livros de praticamente todas as épocas. A Saraiva em seu selo Romances Saraiva também tem romances bonitinhos e baratinhos. A Editora Arqueiro lançou há uns dois meses três bons romances históricos ambientados na Inglaterra: Desejo à meia-noite, de Lisa Kleypas; O Duque e Eu, de Julia Quinn e As Regras da Sedução, de Madeline Hunter. Eu adorei cada um deles: são boas histórias com tradução boa, cuidado com a diagramação e editoração e preço bastante amigável.

Todo romance histórico tem basicamente um “esqueleto”: nobre experiente e com uma visão pouco favorável do casamento, mocinhas ligeiramente ingênuas e com toda certeza virgens. Uma situação que coloca em risco a “virtude” dessa moça e /ou um casamento de conveniência que se torna “casamento por amor” no meio da história. Acrescente aí um pouco de aventura, um pouco de política de época, um toque de humor e voilá! Se você for talentosa produz um livro de sucesso.

Todos esses romances têm em comum o fato de que, diferente dos romances de Austen, Heyer e Cartland, os personagens masculinos são bem marcantes (característica de surge no inicio dos anos 80, mas que se intensifica e toma corpo a partir dos anos 90 e inicio do século XXI). São, em geral,  homens da nobreza ou que ascendem socialmente por meios próprios e se tornam “nobres” por conta da riqueza e, por consequência, mais influentes na sociedade londrina . As mocinhas, apesar de a toda hora se “lembrarem” das regras de etiqueta e comportamento da época, são audaciosas: se deixam beijar (e, muitas vezes conhecem biblicamente o amor da sua vida antes do sacrossanto laço do matrimônio). Cada vez mais as autoras se preocupam em criar toda uma atmosfera em torno do casal. Não é só contar um romance, mas descrever a dinâmica da sociedade da época o mais fielmente possível. Honrando a tradição de pesquisa história de Charlotte Heyer, as autoras pesquisam detalhadamente o período histórico em que irá se desenvolver sua história.

Por conta desse cuidado, ler um romance mulherzinha de época é também uma aula (informal) de história britânica (às vezes americana). Não é somente a diversão, o romance, mas como essas pessoas viviam, o que comiam, o que vestiam, com  quem guerreavam, como funcionava a política. Ainda que não forneça informações profundas sobre esses assuntos, servem como introdução à esses tópicos.

Quem procura um romance histórico está em busca de uma “maquina do tempo” que possibilita viver outra época, numa outra sociedade. É interessante notar que além da diversão, pode ainda levar um pouquinho de história. É prova cabal que mesmo na diversão você pode aprender alguma coisa.

E para quem ainda não leu, os outros posts da série sobre “Romances mulherzinha”:
Sobre o Livro Mulherzinha;
Os Eróticos;
Os Contemporâneos; e
Os brutos também amam

Um comentário em “Mulherzinhas “Vintage” : Romance de Época

  1. Amo romances históricos. Só não concordo muito com os apontamentos sobre Jane Austen no início, porque pra mim os personagens masculinos são tão vivos na história quanto as mocinhas. Mr. Darcy e o capitão Wentworth tem tanta importância para se entender a obra como as demais personagens, pelos sentimentos que carregam, postura e ações na história.

    Abs!
    Izabela
    cadernoderesenhas.blogspot.com.br

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