Depoimento de um viciado em palavras.

snoopy_readingNa minha casa sempre tiveram muitos livros, a maioria achados de sebo. Me lembro até de ir na Rua Direita, Barão Itapetininga no começo de cada ano para procurar coisas raras a dois/três reais. Era uma diversão, quase um evento anual, tal qual o Natal, Cerimônia de Oscar ou a Final da Libertadores. Entretanto, nesse época eu já era um leitor ávido… Se olhar mais para trás em meu passado, um véu de névoa confunde mais as coisas. Mas tenho certeza absoluta que não era um leitor com “L” maiúsculo tal qual me formaria. Era muito mais casual do que você possam imaginar.
O meu primeiro livro foi O Pequeno Príncipe, ou pelo menos aquele que me lembro primeiro de ler na sala da casa de minha vó que ainda consegue ser plasticamente idêntica nos dias de hoje, uma coisa que só avós conseguem fazer. Mas ao contrário do que você possa pensar, eu vou contrariar o clichê de que é melhor livro do mundo e que me emocionou, etc… pois na verdade eu o acho um livro divertido, mas não muito memorável. rsrs.
Sei precisar um pouco as minhas transformações literárias e vou tentar precisar elas no tempo tal qual as escolas literárias tentam, em vão, colocar datas de começo as correntes literárias.
1 – O LEITOR CASUAL
Eu era uma criança com mais imaginação do que paciência para sentar na poltrona e ler, mas ainda assim vez ou outra caia nas armadilhas das linhas e certas obras me fisgavam um pouco. Posso dizer que talvez tenha sido o período imaginativo mais fértil, certas coisas eu lembro até hoje, outras se perderam mas eu sei que existiram, pois eu também desenhava uns personagens com traços de Pollock que ainda se encontram nos meu cadernos antigos.
Se fosse para escolher um livro que me introduziu à arte de ficar quieto lendo na poltrona, foi os Três Mosqueteiros (Adaptação), que eu demorei muito para terminar, o que hoje faria em uma sentada, mas o fato é que as várias desventuras de D’artagnan e os ditos cujos me instigaram bastante, e creio que funcionavam mais como combustível para sair esgrimando com a sombra por aí.
Um evento que me deixou afoito e louco para ler foi o lançamento nas bancas do encadernado, ainda em tamanho de revistinha, de A Morte do Super-Homem. Vocês têm que imaginar que na época ver o Homem-de-aço sendo esmagado por Apocalipse era algo assustador, o mundo de repente se tornava mais sombrio e… eu adorava (dark since ever), me lembro de ler várias noites na cama o encadernado que ainda está aqui na minha coleção… e também porque era a única história completa que eu tinha em quadrinhos, as demais eram começo de uma, meio da outra, o fim daquela… coisas de 1990. No wait! ainda hoje é assim.Alegre
Mas isso era fichinha perto do sacrifício que fiz para ler um calhamaço na biblioteca do Ginásio, tanto é que tive que pegar duas vezes para terminar. O filme havia me encantado na época e tomei um choque ao descobrir que o livro era absurdamente melhor. E eu que hoje sou a pessoa que vê da seguinte forma: filme é filme, livro é livro ainda falo em alto e bom som. A História sem Fim é um livro muito mais fantástico que o filme. Ainda que as imagens do filme estivessem em minha cabeça, esta mesma apagava tudo e borbulhava na imaginação de Ende que ainda hoje me parece intransponível.
2  – O LEITOR PSICÓTICO.
Aí temos a adolescência, espinhas, mulheres, descobertas, aventuras… para os outros. Eu era o típico cara anti-social que fugia de tudo, de todos e das sombras também. Foi na biblioteca que abriu perto de casa que eu descobri um mundo de clássicos… e uma lista de romances que ainda hoje é bem difícil de ser cumprida. Só o fato de ter Homem Sem Qualidades, Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido, Jean Christopher e a pequeníssima Comédia Humana já era uma tarefa considerada árdua, mas eu era jovem e precisava matar o tempo entre o ensino médio e o técnico e encarei o desafio que nunca foi cumprido. Por isso o psicótico, eu queria ler tudo como quem assiste dois filmes ao mesmo tempo.

Lembro que um dos primeiros romances que me mostrou que a literatura podia ser algo mais que somente um escapismo de aventuras. Foi um título que quase foi para a fogueira pelas mãos de seu próprio autor. O Processo, de Franz Kafka me mostrou um mundo em que só existem perguntas, nenhuma certeza e um final perverso que te faz repensar tudo que você leu. O tom e seu final cruel ainda ficam na minha cabeça até hoje.
Nessa época também tive um companheiro para deixar as coisas mais leves, mas que foi essencial para equilibrar meu anseio por conhecer novas obras e autores. Harry Potter, a saga que muitos torcem o nariz me ensinou duas lições valiosas: 1 – Uma série como a Rowling cria muitos novos leitores, e eu sou um deles, então os críticos podem até virar o nariz, pois estas séries são necessárias. 2 – Eu me forcei a ler em inglês  para terminar a história, e contrariando todas as expectativas eu consegui.
E por último eu elejo aquele que foi o mais difícil para mim, e quem me conhece pode pensar que eu vou colocar o Joyce na roda, mas não… o livro que tive que ler duas vezes para entender foi Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez. São tantos personagens e tanto non-sense que eu achei que era loucura dos críticos elegerem aquela obra como valiosa. Deixei o livro de canto, e seis meses depois eu encarei e aí entendi o livro. O mundo da perspectiva de um adolescente muda muito em 6 meses. E por isso que quando coloco na minha descrição que não gosto de Madame Bovary, não é uma birra de momento: Eu li duas vezes o livro do Flaubert, para chegar a conclusão que não gosto, o que não tem absolutamente nada ver com o valor literário dele.
3 – O LEITOR-CRÍTICO.
3 Fases e 3 livros para cada um. É óbvio que é um artifício para comemorar o nosso aniversário de 3 anos, só que nessa fase que é a atual a coisa vai ficar um pouco complicada, uma vez que ela ainda ocorre e há vários momentos importantes: o Primeiro contato com a Literatura Africana (Estórias Abesonhadas), o primeiro livro de crítica literária que amei (Valise de Cronópio), primeiro autor que fui a fundo (Edgar Allan Poe), primeira pessoa que me influenciou e me ajudou a gostar de um autor (Rxxxxx, me apresentando Flores do Mal), primeira série de quadrinhos que ganhou meu respeito (Sandman), dentre outros momento.
Talvez eles pareçam muitos porque são recentes, ou talvez por que essa estratégia de 3 livros seja meio fracassada mesmo, mas eu posso dizer que o que muda de lá para cá é que entrava no mundo da faculdade com muitos preconceitos literários e com a ideia de que somente os clássicos importavam. Contudo descobrir novos autores virou um grande hobby. Então os mais importante foram aqueles que quebraram alguns preconceitos que tinha:
Com Literatura Contemporânea: A Estrada, de Cormac McCarthy. O primeiro livro novo que fui não esperando nada e encontrei uma complexidade diferente em cada página, de uma história simples mas que me choca até hoje.
Com Poesia: Obra do Carlos Drummond, e eu gostaria de dizer que era drummondiano antes da faculdade mas meu conhecimento e visão poética do mundo só foi se desenvolver na faculdade de Letras mesmo.
Com Infanto-Juvenis: E a Luani vai soltar um pequeno berrinho, mas o livro que me fez repensar e começar a apreciar a produção para baixinhos foi Pedro e Lua do Odilon. Minha tristeza ao seu final foi profunda.
Tentar ser um leitor com cabeça aberta é na verdade difícil, mas eu continuo tentando e nesse ponto a amizade que desenvolvi com meus companheiros aqui no blog é imprescindível. Muitas resoluções novas já saíram de minhas discussões com o povo, daquelas amigáveis, tanto é que nós brincamos que são poucas as obras que todos nós admiramos: Neil Gaiman e Retalhos, se eu me lembro bem… e obviamente uma das grandes, senão a maior, contribuição para esta última fase e de estar aqui escrevendo com e para vocês, é muito bom ser lido e compartilhar as experiências. Longe de tentar criar uma tese toda a semana, somente para indicar, compartilhar ou mesmo infernizar quando não gosto de algum romance (e eu me surpreendo como nenhum autor me xingou ainda).
Tá… e por que isso? Acho que é porque na semana de comemoração queria compartilhar o que foi essa caminhada de leitor. Ou para indicar algumas das obras que mais me marcaram. Ou porque eu acabei de terminar O oceano no fim do Caminho e as lembranças de infância começaram a me perseguir. Ou… somente para fazer um narrativa fofinha, no final aquela criança imaginativa parece ainda morar em mim.
Só sei que quando nos sentamos num bar e resolvemos fundar o blog, não imaginávamos chegar a 3 anos de tanto amor entre nós, com vocês e com os livros. Por isso quero agradecer a todos que nos acompanham hoje, pois sem vocês não tem graça. Aos coleguinhas Kalebe, Juliana, Luani e Amanda. Nossos principais colaboradores Matias, Bruno e Ricardo. E principalmente A VOCÊ que está lendo aí, e não dormiu na metade deste post chato. Alegre
Sem vocês não tem graça. Valeu pessoal!

2 comentários em “Depoimento de um viciado em palavras.

  1. Antes de tudo, parabéns pelos 3 anos de blog!! Curto muito O Espanador, apesar de não ser sempre que eu apareço nos comentários.
    Achei incrível essa ideia de trajetória literária. E olha só, também enxergo que livro é livro e filme é filme! Claro que uma ou outra comparação é inevitável às vezes, mas costumo não misturar expectativas até porque são duas coisas distintas, livro e filme.
    E outro “detalhe” que chamou minha atenção foi Cem Anos de Solidão. Esse é um dos livros que mais gostei na vida, e claro que fez diferença o fato de eu somente tê-lo lido mais adulta. Ele é cheio de detalhes, e eu acho o enredo incrível, além de gostar do tom fantástico que o García Márquez coloca nas histórias.

    Um beijo! Livro Lab

  2. Rafael, seu texto é muito agradável e interessante. Vou voltar para reler. E aprender.
    Vc cita livros que só conheço pelo nome.
    Mas nos identificamos na escolha de livro mais difícil de ler.
    Cem anos de solidão achei difícil e chato. Muito chato.
    O Pequeno Príncipe continua sendo um livro doce e terno para mim.
    Vc já leu Olhai os lírios do campo?
    E já leu alguma coisa de Josué Montello?

    Por que não tira esse “chato” verificador de palavras? Já vou tentando acertar essas letras terríveis, pela 4ª vez. Ninguém merece essa chateação, Rafael.

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