Convidado da semana – O Leão de Toscana

Por: Maurício Ramos

“O ciclismo competitivo capturava a imemorial excitação da corrida de cavalos e a libertava dos limites das pistas, colocando-a nas estradas familiares da vida cotidiana. O público afluía às competições, hipnotizado pela visão de homens competindo uns com os outros em cima de seus cavalos metálicos. Os organizadores das corridas procuravam tirar vantagem de tudo e concorriam entre si, cada qual tentando fazer com que sua corrida fosse a mais longa, sua rota, a mais desafiadora e seu prêmio, o maior. Fabricantes de bicicletas patrocinavam equipes inteiras e ajudaram a estabelecer uma temporada de corridas. Um esporte sem amarras foi transformado em grande indústria e, de obsessão internacional, tornou-se um hábito da vida moderna.”

Esta é a história de Gino Bartali, um ciclista italiano que durante os tempos de paz ganhava corridas e durante os anos de guerra colaborava com uma rede clandestina que salvava judeus. Muito além de desafiar Alpes e Pirineus, esse atleta também desafiou a fome, a pobreza, o tempo e os nazistas.
Entre suas vitórias, estão três Giro d´Itália e dois Tour de France. Se isso não bastasse, ganhou o seu segundo Tour dez anos depois no primeiro. Ainda é o ciclista que por mais tempo conseguiu se manter no auge. Se conquistou apenas dois títulos do Tour, não foi por falta de treinos ou de condição física, foi pela guerra.


Quando pequeno, o patrão de seu pai foi morto por fascistas. Como precaução, escondeu os livros socialistas do pai, com um conselho: manter-se longe da política. Nunca foi possível: a política sempre o acompanhou, por bem ou por mal. Em seu primeiro Tour, os fascistas tentavam promovê-lo como garoto propaganda, no segundo, consagrou-se herói nacional, amenizando uma ebulição política à beira da guerra civil. Sempre negou seu posto de herói na história ao tentar esconder seu feito mais importante: transportar documentos falsificados para judeus refugiados. Com o pretexto dos treinamentos, Gino escondia esses documentos na parte oca do quadro da bicicleta. Com medo de que sua fama como ciclista ofuscasse outros membros mais importantes da operação, decidiu se manter calado. Até hoje não se sabe quantas pessoas ajudou a salvar.

O Leão da Toscana é um trabalho de uma extensa pesquisa histórica de Aili e Andres McConnon. Seu conteúdo transcende o ciclismo e o esporte, reconstruindo o atleta não só por sua condição física, mas pelo seu caráter admirável. A contextualização do cenário político da Itália e a Europa faz-se como historiadores, trazendo à tona a incansável batalha pela sobrevivência durante a Segunda Guerra. Recheado de curiosidades como o nascimento do Tour de France, a revolução da bicicleta na Itália pós-guerra e o funcionamento da propaganda fascista, sem dúvida, é uma leitura obrigatória para amantes da história, de política e da bicicleta.

O Leão da Toscana
Autores: Ali e Andres McConnon
Tradução: Sergio Goes de Paula
Editora Zahar
342 pgs

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