[Flip 2013] Diário de bordo: Sexta-feira (dia 5/7)

Por: Juliana Leuenroth e Rafael Kalebe

(mais uma vez pedimos desculpas. Mas a conexão de Paraty estava tão horrenda desta vez, que acabamos desistindo de postar)

Sexta-feira, a programação principal escolhida era tranquila… Apenas duas mesas e o resto do dia para passear pela cidade e tentar pegar algo da programação paralela. Casa Folha, IMS e Sesc novamente se esforçaram em oferecer eventos bem bacanas. E o mais legal: gratuitos. Esse ano ainda teve a Flipmais, na Casa de Cultura, que também tinha sempre algo acontecendo. Paraty não parava.


foto do site Vortex Cultural

Mesa 6: “O prazer do texto”, com Lila Azam Zanganeh e Francisco Bosco, mediada por Cassiano Elek Machado

Ao mesmo tempo que foi interessante, foi uma mesa que tivemos a impressão que o seu título, apesar dos esforços, tenha ficado um pouco em suspenso. Não por falta de esforço dos participantes, mas pelas interpretações um tanto diferentes sobre isso.

A nossa percepção é que Bosco entende do assunto e que consegue expressar conceitos complexos de uma forma clara (e porque não didática), que atraiu boa parte do público. Mas confessamos que para nós as falas não causaram comoção. Talvez por nos passar uma impressão de falta de envolvimento pessoal com o assunto, sem relacionar o tema com a sua escrita. Do outro lado, tínhamos uma autora apaixonada por Nabokov e que trazia a sua experiência pessoal, tanto como leitora, quanto como escritora.


Foto: Juliana Leuenroth

Ela começa sua fala utilizando uma frase de seu livro, O Encantador: “lemos para reencantar o mundo”. Questionada o porquê dela escolher Nabokov (que trata de temas controversos) para falar sobre felicidade, Lila afirma que Lolita é uma grande história de amor. No entanto, ela é extremamente controversa. Anda assim, Lila afirma: “desde o início da literatura, as grandes histórias de amor são romances transgressores”. Nabokov escreve um grande romance do século XX utilizando dois dos únicos tabus que ainda restam: incesto e pedofilia.

Ok, entendemos que Lolita é uma grande história de amor… Mas e a felicidade? Lila explica que Nabokov acreditava que os únicos textos com verdadeiro encanto seriam os “contos de fadas”, pois eles têm o “toque de mágica”. Porém, o conceito de conto de fadas é um pouco mais amplo, e tanto Nabokov quanto Lila expandem o conceito do que seria “conto de fadas”, incluindo autores como Proust e Joyce. Seguindo este raciocínio, a escrita de Nabokov também possui esse “toque de mágica” e, por que não, felicidade.

Bosco era o contraponto teórico da mesa. Explicou conceitos, citou Barthes, tudo de uma forma descontraída e de fácil compreensão para o público. Vale dizer que as falas dos dois acabavam por complementar-se. Ele, então questiona: “Será que escrever é a forma de materializar aquilo que pensamos?” e que aí estaria um dos prazeres do texto. Lila concorda com o autor e ainda comenta da importância  da imaginação neste processo. Em seu livro, que mistura não-ficção, ensaios e ficção, ela diz que os momentos em que precisou usar sua imaginação foram os mais prazerosos. E dá o exemplo da entrevista que imaginou fazer com Nabokov. “Foi como um jogo de espelhos”, em que ela teve de encontrar a voz de Nabokov dentro dela. E complementa citando seu autor favorito mais uma vez: “a imaginação é a nossa casa portátil”.

Vale mencionar que esta mesa foi todinha falada em português. Lila é franco-iraniana e já falava seis idiomas. Mas se esforçou em aprender português para participar da Flip. Se a imprensa já a denominava “musa” da Festa, imagina depois desta mesa, em que ela esbanjou simpatia e cantou Adoniran Barbosa!

Esse ano ficou muito claro o crescimento e o fortalecimento das atrações paralelas que acontecem em outras casas durante a Flip. A pior parte nessa história é que ao escolher as atrações principais, invariavelmente você perde as outras.

foto: Rafael Kalebe

A Casa Sesc tinha uma programação bem diferente e interessante e na sexta-feira às 16hs presenciamos um momento incrível. A casa tinha um palco meio improvisado, mas com uma arquibancada bacana. Fernando Bonassi e Edgar Scandurra fizeram uma espécie de intervenção, misturando literatura e música. Bonassi (autor do livro Montanha-Russa, parte de uma coleção chamada “ópera urbana”, da Cosac Naify em parceria com o Sesc), declamava o texto que narra a passagem da adolescência do pai durante a ditadura militar e as mudanças que aconteceram ao longo do tempo. Tudo isso ao som da guitarra de Scandurra, que fazia interrupções para cantar músicas de diversas bandas dos anos 80 (entre elas, obviamente o Ira!), com uma harmonia incrível.

Parece que os dois já fizeram diversas apresentações nesse modelo e depois o próprio Bonassi disse que em outras apresentações, quando existe uma interação maior com o público (principalmente pelo autor falar o texto de uma forma provocadora, mas num bom sentido), pode ficar ainda mais interessante.

Porém, como dissemos, a Flip é feita de escolhas. Ficamos pela Casa Sesc e acabamos perdendo a mesa entre Tobias Wolff e Juan Pablo Villalobos, que substituiu o norueguês Karl Ove (chamada de “Ficção e confissão”). Uma pena, pois só ouvimos elogios sobre esse encontro.

2 comentários em “[Flip 2013] Diário de bordo: Sexta-feira (dia 5/7)

  1. Eu assisti a entrevista da Lila para o Jô, gostei muito dela, bem simpática!
    Puxa vida aprender o português para participar da Flip, bem bacana da parte dela.
    Invejinha de vcs aí no evento hehehe

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