[Flip 2013] Diário de bordo: Quinta- feira (dia 4/07)

Por: Juliana Leuenroth e Rafael Kalebe

(pedimos desculpas pela demora. A internet de Paraty ainsa deixa um pouco a desejar :/ )

Quinta-feira é quando a Flip começa pra valer. A programação já aparece cheia de possibilidades e deixa quem quer participar da festa meio zonzo com tantas informações. Mas a cidade parece que já entrou no ritmo. Se nos anos anteriores as pessoas chegavam aos poucos, ela acordou com muita gente desta vez. Já imaginamos como o fim de semana estará.

Hoje nos focamos na programação oficial e para tentar fazer o reconhecimento da cidade (que este ano não tem a casa da Cia das Letra, nem da Intrínseca. IMS, Folha de S.Paulo continuam firmes e fortes – a Folha com 2 casas este ano e a novidade: a casa Kobo Livraria Cultura. Tentamos conhecer a casa Rocco, mas ela estava fechada).

Foto: Divulgação Flip

Mesa 1: “O dia a dia debaixo d’água”, com Alice Sant’Anna, Ana Martins Marques e Bruna Beber, mediada por Noemi Jaffe

Uma mesa que não tínhamos comprado ingresso, mas que surgiu a oportunidade de assistirmos. E não recusamos.

A primeira mesa oficial da Flip começou com um pouco de atraso, 15 minutos, coisa tão difícil de acontecer. Mas a partir do momento que Alice, Ana, Bruna e Noemi entraram no palco, esse tempo de espera nem parece ter existido. À primeira vista o que mais chama a atenção é a pouca idade das escritoras. Alice tem 24, Bruna 27, e Ana 35. Passada essa sensação (que já existia, basta conferir a programação), a mediadora Noemi Jaffe, através dos livros das autoras, explicou o tema da mesa, o dia a dia debaixo d’água. Ela perguntou às autoras se o mar não existia como uma especie de fuga, já que ela havia encontrado algum tipo de desencanto das palavras ou mesmo do mundo na poesia delas.


Para Alice, o Rabo de Baleia (título do seu livro) só existe nas palavras, como uma alternativa mesmo. E ela, como nasceu no Rio, teve sempre o mar muito presente. Ana Martins disse que como mineira o mar sempre teve esse fascínio, uma forma de falar sobre a criação poética que emerge do fundo, como um iceberg (excelente metáfora). Bruna, que também cresceu longe do mar, reflete sobre esse fascínio que ele exerce, com tudo que foi cantado e narrado (através da poesia portuguesa que ela gosta muito), mas  afirma que hoje é um pouco menos desencantada com o mundo, mas nunca com as palavras.

Vieram algumas perguntas sobre o processo de escrita (mais precisamente a questão dos cortes nos versos), o amadurecimento ‘precoce’ delas e a leitura de mais algumas poemas, que deixou a platéia com um gosto de quero mais.

Veio também uma pergunta do público direcionada para Alice, mas que tinha a ver com todas: Por que a Poesia? Ao que ela timidamente perguntou se poderia responder com outra pergunta: Por que não a Poesia? Bruna complementou a resposta fazendo uma analogia, comparando a poesia a uma varanda, onde ela pode observar, sentir, passar um tempo, chorar, entre tantas outras coisas.

Difícil pensar na dificuldade de ser tão jovem e estar em frente a um publico tão grande. Alice, a mais jovem, tímida, um pouco nervosa e adorável, Ana, talvez a mais confortável e segura entre elas, talvez por ser um pouco mais experiente e Bruna que parecia se esforçar em demonstrar uma imagem exagerada de eu-não-ligo-pra-nada-disso e só-escrevo-poesia, um pouco mais irônica também.

A mesa continuou como uma bate papo entre 3 autoras, que mesmo com semelhanças, eram muito diferentes, o que criou uma química tão interessante que acabamos por nem perceber o tempo passar.

Vale destacar a excelente mediação da Noeami Jaffe que conseguiu conduzir tão bem a mesa.

Como sempre as mesas com uma expectativa diferente, são as que mais surpreendem a gente na Flip.

Foto: Juliana Leuenroth

Mesa 3: “Formas de derrota”, com José Luiz Passos e Paulo Scott, mediada por João Gabriel de Lima

Ainda que os autores sejam da mesma geração, o que chama atenção a primeira vista é de que forma a escrita deles se aproxima, ou mesmo porque os 2 autores estavam nessa mesa?

Os dois autores, apesar de tratarem de realidades diferentes (em termos regionais e temporais), se aproximam por usarem personagens bem fortes com conflitos que os definem de alguma forma. Enquanto Scott (em Habitante Irreal) utiliza como mote a situação indígena no Brasil, José Luiz Passos (em O sonâmbulo amador) aborda a situação de um personagem que acaba sendo internado em uma instituição para pessoas com problemas mentais. Passos diz que a ideia (que surgiu enquanto terminava seu primeiro romance, Nosso grão mais fino) é que o desastre do personagem aparecesse de uma forma sutil. E a solução é que esse desastre se desenvolva através de sonhos. Já Scott diz que as personagens (tanto de Habitante Irreal, quanto de seu novo livro, Ithaca Road) não se sujeitam à situação em que vivem. De certa forma, os dois autores acabam por abordar a forma como as pessoas lidam com a derrota, com a decepção.

José Luiz Passos diz que a literatura é uma forma de organizar as coisas/informações. A literatura tem a capacidade de chamar atenção para questões complexas, ao criar imagens e situações, que faça com que o leitor reflita as consequências de certas ações, de criar empatia e nos fazer refletir sobre o caminho que os personagens tomam. Desta forma, ele tenta explicar (e questionar ao mesmo tempo) o motivo dos leitores gostarem de livros em que a desgraça dos personagens está colocada.

Uma das qualidades da mesa foi a relação de amizade e profundo respeito que já existe entre os autores e ficou evidente para todos que estavam presente. Em vários momentos Paulo Scott usa o livro de José Luiz Passos como exemplo, ou mesmo suas palavras.

O mediador questionou os autores sobre a geração de novos autores, que aparentemente (segundo os críticos) não tem preocupação em escrever um romance que defina sua geração. A resposta dos dois escritores demonstra que essa questão não é posta para eles, que retratar ou não sua geração seria algo um tanto impossível. José Luiz Passos comenta que a nossa geração é tão múltipla, que fica difícil retratá-la como um todo. O que acontece é que autores conseguem abordar realidades distintas. E dá como exemplo ele mesmo: que nasceu numa cidade agrária do nordeste e que há autores da região em que ele se identifica. Paulo Scott também não demonstra ter esta pretensão. Comenta que escreve para compreender aquilo que o incomoda e sobre o que os outros se sentem incomodados em relação a ele. O autor  foi muito duro em suas palavras e acredita que só foi convidado porque seu livro Habitante Irreal pareceu um tanto profético nos dias de hoje (o livro se passa em 1989, em que um jovem militante político vê seu partido chegando ao poder na capital de Porto Alegre e ao invés de se sentir bem com isso, vê o loteamento de cargos políticos por favores).

A mesa surpreendeu pois acabando um rumo inesperado. Tornou-se mais política e crítica. Mas em nenhum momento foi apontado este ou aquele partido, porque política também são relações muito mais corriqueiras e comuns do que necessariamente a disputa partidária. Sobre isso, Passos dá o exemplo de como esse processo se dá em seu livro O sonâmbulo amador. Apesar da história se passar em 1966 (início da ditadura militar), a política está presente na relação de amizade entre dois personagens principais (Jurandir e Marco). Scott comenta sobre Maína, personagem de Habitante Irreal, que é uma garota de 14 anos que não se sujeita à sua situação (indígena, que vive na beira da estrada, totalmente à margem da sociedade).

Scott ainda complementa que a geração retratada neste livro, e da qual ele também faz parte, lutou muito por mudanças políticas concretas e que prometeu que não falharia ao chegar ao poder. Porém a sensação que temos hoje é que grande maioria desta geração se acomodou e se desinteressou por tudo que aconteceu.

A conversa com esse tom mais ‘crítico e politico’, com palavras mais duras pareceu agradar a platéia que num momento expodiu em palmas frente as palavras de Scott sobre alguns politicos, mas que logo depois passou para um certo desconforto ao vê-lo admitir uma mea culpa de sua geração, e dele próprio e além disso fez um discurso sobre algumas diferenças gritantes na sociedade, dizendo que em lugares mais ‘trabalhados’ a diferença entre patrão e empregado não é tão distante.

Parece que essa reflexão não era esperada (talvez as pessoas esperavam críticas a tudo isso que está errado). E os autores acabaram por criar esse desconforto, digno da literatura.  Ao que Paulo Scott conclui de uma forma brilhante e terrível: “Todas gerações precisam aceitar os seus sonhos e suportar a derrota”.

3 comentários em “[Flip 2013] Diário de bordo: Quinta- feira (dia 4/07)

  1. Ah, que delícia saber que vocês estão aproveitando tudo isso e ainda tendo a generosidade de compartilhar conosco, que não temos, ainda, a chance de ir e experienciar tudo ao vivo… Um dia irei com vocês, aguardem!! 😉

    Xêros, seus lindos!!
    Paty

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