Tirando o pó: Sobre o Livro Mulherzinha

O livro “mulherzinha” integra (pelo menos é essa a minha percepção) o tripé da “Literatura que não é levada a sério” pelos ditos críticos literários (policial e fantasia completam o tripé). O interessante é que o Romance “romântico” ou “livro mulherzinha” resiste às criticas e continua atraindo leitoras e, em países como EUA e Inglaterra, constituem parte importante das vendas de livros. Tão importante que tem até um prêmio só para eles o RITA Awards que desde o inicio dos anos 80, no mês de julho, premia as melhores histórias em mais dez categorias. Além disso, a Romance Writers Of America, que é a instituição responsável pelo RITA tem como missão ajudar as escritoras do gênero, dando suporte legal e técnico. A RWA promove cursos de escrita, encontros com autores, além de outras atividades ligadas a escrita e publicação.

No Brasil o “romance mulherzinha” passa a ser tratado com um pouco mais de respeito. No passado eles eram, em sua grande maioria, publicados no formato “banca de jornal”. Eu li muito deles, mas precisamos admitir que nem sempre eram bem traduzidos e o material ficava um pouco a desejar.  Parece-me que já há algum tempo as grandes editoras começam a perceber o potencial econômico desse nicho, deixaram de se preocupar com o que os “críticos” poderiam falar e começaram a publicar esses livros para livrarias. A Record ,com vários de seus selos, já faz isso há alguns anos, apesar dos preços salgados dos seus livros. A Companhia das Letras com a Paralela publicou a trilogia “Crossfire” e alguns outros títulos do gênero. A Novo Conceito consegue unir boas traduções com cuidado com a edição e preços camaradas. A Arqueiro também trouxe livros bem cuidados e traduzidos e nos últimos meses lançou três romances históricos bem interessantes e com preços competitivos. A Saraiva criou o “Romance Saraiva”, que publica pocket books. São histórias que já foram publicadas pela Harlequin e que saíram em banca de jornal, mas que agora têm novo projeto gráfico. Ficou muito bom, mas a tradução pode ficar melhor.

Mas o que define o Romance romântico? Alguém poderia dizer que o romance é uma literatura feita por mulheres para mulheres, uma historia água-com-açúcar de uma mulher frágil e dependente e do homem forte com feições aristocráticas por quem ela se apaixona e que é irá lhe proporcionar o “felizes para sempre” do final da história. Essa é uma visão simplista. Na verdade, mas do que “mocinha frágil encontra homem forte”, o romance é a história da construção do relacionamento entre o casal principal. Realmente as histórias inicialmente eram de mocinhas virgens e de homens valorosos, mas temos que levar em conta o contexto histórico: nos séculos passados casar era a única coisa que uma moça poderia almejar e os homens tinham um preferência pelas inocentes (em todos os sentidos).

Provavelmente existiram outras, mas para simplificar vamos creditar às irmãs Brontë e Jane Austen os primeiros “livros mulherzinhas” As mocinhas casadouras estão lá, o homem “salvador” e o casamento como objetivo a ser alcançado também, mas dois romances, Persuasão, de Austen, e Jane Eyre, de Charlotte Brontë trazem uma heroína um pouquinho diferente: elas são menos passivas que suas antecessoras e os mocinhos menos” virtuosos” que antes. Em Jane Eyre vemos isso bem claro, com Jane tomando a decisão de “conhecer o mundo” e procurando emprego não somente porque precisa, mas porque queria ser independente e com Sr. Rochester que, apesar da nobreza do título, não é de todo sincero com Jane e que está disposto a se tornar bígamo para ficar com ela.

Mais recentemente, no século XX, temos inicialmente Barbara Cartland com seus romances envolvendo jovenzinhas virgens e membros virtuosos da nobreza e Georette Heyer, que escrevia seus romances baseada em uma cuidadosa pesquisa histórica, como as primeiras grandes damas do romance. Ambas escreviam Romance Histórico, com um recorte a partir do século XVII, XVIII. Até mais ou menos os anos oitenta as historias não se modificam muito, mas como resultado do feminismo, as heroínas aos poucos vão deixado de ser inocentes e passam a ter uma personalidade mais tridimensional, menos dependente e se tornam mais senhoras de si mesmas. Os personagens masculinos também passam a ter um caráter mais “próximo da realidade”. Desde então o romance vem se diversificando.

Uma busca por “romance” na Amazon.com vai te dar no mínimo uns 10 tipos de” romance mulherzinha”. Para simplificar a vida, eu divido os romances que eu leio em quatro categorias básicas:

“Romance Romântico”: que pode ser contemporâneo ou histórico: é o romance básico: mulher conhece homem, eles se envolvem, precisam superar eventuais obstáculos e vivem felizes para sempre. Nora Roberts, Danielle Steel, Barbara Freethy e Rachel Gibson escrevem romances assim;

Romance Erótico: que tem cenas de sexo mais explicitamente escritas e que tem três subcategorias: O romance F@#% da Ostentação onde o órgão sexual mais proeminente é a conta bancaria do “herói da história” como, por exemplo, os livros da série “50 Tons de Cinza” e “Crossfire”; O erótico-fantástico, que geralmente envolve criaturas mitológicas, folclóricas ou celestiais e vampiros como a série “Night Breed”, da Lara Adrian; e tem o erótico “isso pode acontecer com você”, como alguns livros da Bele Andre: mulher comum encontra homem comum e tem o melhor sexo de todas as suas encarnações;

Thriller Romântico que é a combinação do policial e do romance e, às vezes generosas doses de sexo. J.D Robb e sua serie “Mortal”, Barbara Freethy e Lori Foster são grandes nomes do gênero;

E, finalmente o “mulherzinha” escrito por homens: Nicholas Sparks é o grande astro dessa categoria, mas Richard Paul Evans vem ganhando leitoras. O grande barato desses livros é a visão masculina dos relacionamentos.

Nas próximas duas semanas vou esmiuçar mais cada tipo de romance e resenhar os livros mais legais que eu li nos últimos meses e que melhor representam cada tipo. 

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