Os 60 anos de Bolaño

Se estivesse vivo, o autor chileno Roberto Bolanõ completaria 60 anos hoje.

É estranho imaginar que já fazem 10 anos que vivemos sem Bolaño, pois sua presença ainda é tão forte, que a sensação que se tem é que ele nunca foi embora realmente. Parece uma afirmação sentimental, pois todo bom autor vai sempre sobreviver através de sua obra, mas com Bolanõ foi um pouco diferente.

Depois de uma vida errante e escrevendo poesia, a partir do nascimento do seu primeiro filho, em 1990, ele se sentiu responsável pelo futuro da sua família e seria mais simples se ele escrevesse ficção. Mas só conseguiu publicar em uma editora grande aos 43 anos, em 1996. E sua estreia na ficção foi com o polêmico romance La Literatura Nazi en América (antes disso já tinha escrito poesia e alguns contos curtos). Depois dessa estréia foram mais de 17 livros em uma produção frenética, ganhando destaque ao publicar o espetacular Os Detetives Selvagens (1998), que ganhou o importante prêmio Romulo Galegos em 1999.

Morreu em 2003 em decorrência de uma complicação hepática na fila esperando o transplante.
Mas ao saber da doença ,Bolaño começou a escrever de uma forma ainda mais compulsória, quase febril e chegou a escrever um romance de mais de 1200 páginas que ele nunca chegou a terminar.


Desde sua morte, começou um movimento de redescoberta de sua obra com a publicação do romance inacabado 2666 em 2004 e que atingiu o seu auge com a publicação do livro em língua inglesa em 2008. Desde então, sua obra vem ganhando cada vez mais destaque num movimento que podemos chamar de Bolañomania.

A partir daí foram descobertos romances póstumos, cartas, que deram origem a uma exposição em Barcelona, “Arxiu Bolaño 1977-2003″, no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona (o CCCB) com muitos arquivos do autor, mostrando um pouco do seu processo de escrita. 

Talvez ainda existam muitos Bolanõs perdidos e vai demorar muito tempo para conseguirmos entender a verdadeira importância e o impacto dele na Literatura.

Para quem ainda não conhece a obra de Bolaño, damos aqui algumas dicas de Bolañistas do blog para quem queira se aventurar na narrativa frenética do autor chileno

Ivan Ricardo (colaborador do blog)
Por que ler Bolaño?

Além de ser o autor latino-americano mais em alta no momento, de 2003 para cá, pelo menos, é uma forma de reconhecimento, tardio é verdade, a um autor que não teve sua obra devidamente apreciada quando vivo, o que vem sendo comprovado pela qualidade do material inédito encontrado em seu espólio.

Bolaño é um autor para quem ama literatura, para quem não conseguiria viver sem literatura.
Na resenha de Chamadas Telefônicas, que publiquei n’O Espanador, citei uma frase de Kafka – “Tudo que não for literatura me aborrece” – que me parece perfeita para este chileno que, acredito, nunca deve ter pensado em viver de outra forma ou por outro motivo durante os seus 50 anos.

Se ele tivesse tido mais tempo para escrever, imagino o que poderia ter sido capaz de criar ou aprofundar, uma vez que seus personagens transitam sem o menor pudor de um romance ou conto para outro, o que só corrobora com a ideia de que Bolaño não deve ter vivido para outra coisa se não para ampliar o mundo de sua imaginação.

Se tivesse que indicar algum preferido diria que é Estrela distante. Um livro que, me perdoem o clichê, prende o leitor até a última linha e que traz vários dos temas caros ao autor: a metaliteratura, a trama policialesca/investigativa, as digressões e pistas falsas que se espalham ao longo da narrativa, a violência exacerbada, a crítica política e, talvez o principal ingrediente, o ritmo nervoso e candente da sua prosa, que parece prestes a entrar em ebulição.

Outros que citaria são os contos de Chamadas telefônicas, espécie de laboratório de ideias para os textos mais longos, e o instigante O terceiro Reich que, escrito em 1989, não foi publicado em vida pelo autor, talvez por destoar de seu projeto literário ou por não ter encontrado um editor que reconhecesse o seu valor, o que não seria de se estranhar.

Não citei Os detetives selvagens e 2666 porque ainda não os li, exceção ao primeiro livro de 2666, que gostei muito. Mas se quiserem começar por esses também está bom: uma dose extra de Bolaño não faz mal a ninguém.

Rafael Kalebe
Por que Ler Bolaño?
Porque ele está entre as maiores/melhores leituras da minha vida

Antes de explicar porque ler Roberto Bolaño, uma pequena história.

Posso afirmar que ao ler Cem Anos de Solidão, aos meus 15 ou 16 eu sabia que alguma coisa mudou. Talvez não tenha ficado muito claro naquele momento, mas as leituras que se seguiram me indicaram um novo caminho, A Literatura Latino-Americana. E depois de Gabo vieram muitos outros: Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti, Vargas Llosa, Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Mario Benedetti, Leopoldo Lugones, Adolfo Bioy Casares. Todos esses nomes já consagrados na Literatura só confirmaram que escolhi o caminho certo.

O parágrafo acima tem um pequeno ‘problema’. De todos os autores citados apenas 1 continua em atividade (Vargas Llosa, mas que se pensarmos bem com livros medíocres nos últimos tempos) e depois do Boom dos anos 60/70, os autores que vieram depois ficaram sob a sombra desse movimento.

E antes de chegar a essa compreensão, li um livro que abalou o meu mundo. Daquelas leituras arrebatadoras que mudam o seu mundo. O livro era Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño.
Ali eu percebi que aquele era o caminho do futuro. A renovação começava por ele.

Dono de uma escrita impressionante, de uma urgência e uma voracidade que eu nunca tinha visto. Um estilo de alguém que viveu intensamente a literatura. Respirava a literatura e isso fica evidente em todos os seus livros, seja um personagem obscuro que acaba se tornando um personagem de sua obra, ou mesmo sua necessidade se colocar como um personagem em seus livros. A literatura para Bolaño sempre foi uma necessidade.

Ler Bolaño pode ser uma opção para entender um pouco do nosso passado recente (uma passagem amarga numa prestação de contas de uma geração que passou por uma ditadura, voltou a ter liberdade e o que foi feito dela?) ou principalmente o presente através da violência que ronda os seus livros (impossível esquecer as mulheres assassinadas em 2666).

Ler Bolaño é fazer parte de um mundo fascinante, assustador, visceral, cruel, divertido, irônico.
Ler Bolaño é viver um pouco de literatura. Na verdade, ele é um escritor que me passa a sensação de que é preciso viver a vida de uma forma ainda mais ampla e arrebatadora.

Sempre complicado saber por onde possa começar a ler Bolaño, mas acho que existem 2 caminhos:
O 1º, mais seguro e tranquilo que serve como uma introdução ao mundo do autor, com seu primeiro livro, Pista de Gelo, que tem (como quase todos os livros do autor) traços autobiograficos do jovem Bolaño ao chegar na Espanha e também traz outra obsessão do autor (tramas policiais). A 2º é se você acha que a vida é muito curta para viver em segurança. Mergulhe de cabeça no mundo fascinante de Os detetives selvagens e acompanhe a saga de Arturo Belano e Ulisses Lima tentando encontrar uma poetisa perdida. Através de outros relatos vamos montando um pouco do quebra cabeça.

Rafael Menezes

Começar a ler um escritor novo sempre é uma experiência interessante. Tem escritores que necessitam de uns 2, 3 livros para te pegarem… ou não. Com Bolaño aconteceu a receita para que eu fique de bico com o escritor: as pessoas me encheram o saco, falaram horrores e pregavam a maldita frase “Você tem que ler!” O coitado do escritor não tem nada a ver com isso, mas fico com birra dessas ondas estranhas que acontecem na literatura. Felizmente eu me conheço e ignorei todo mundo até que um livro me despertou o interesse mais pelo o tamanho da obra do que pelos comentários em torno dela, também pudera quase 1000 páginas no original em espanhol não era uma tarefa fácil e para poucos. A tradução de 2666 saiu muito festejada em 2011, e chato como sou e sempre procurando desafios literários, ele me seduziu prometendo mundos e fundos.
Agora vejamos a contabilidade da obra: 1 – Autor com vários fãs hardcore. 2 – Livro épico em tamanho e ambição. 3 – Romance que condensa toda a obra do escritor falecido em uma experiência estilística inesquecível, ou algo do tipo, era o que falavam na época. O total disso é que minha expectativa estava muito alta com a obra. E o incrível é que poucas vezes na vida você vai com uma expectativa tão alta para a obra e ela o corresponde. Logicamente houve um momento em que ele ficou morno, mas agora olhando para trás, esse momento foi tão longo quanto uma piscada, assim como muito livros quantos você engata a marcha, ele anda como uma Ferrari. E quando isto acontece você tem ciência de que está na companhia de um grande escritor.
Depois disso outras obras entraram na minha rotina literária e devo dizer que o chileno já é um dos meus autores favoritos, no mesmo panteão de Saramago, Coetzee, Mia Couto, Dostoiévsky, Baudelaire, entre outros. Se fosse aconselhar alguém por onde começar diria dois cominhos distintos: 2666 se o leitor quiser um choque térmico literário como eu às vezes prefiro, é um obra que vai dar uma grande abrangência dos temas e estilos de Bolaño as ela é uma obra que exige dedicação do leitor. Não confunda dedicação com pressa. Ler um livro de quase 1000 páginas com pressa é a pior coisa que se pode fazer na vida, mas dedicação como aquilo que você vai lentamente construindo e que uma hora deve te arrebatar. Para aquele que preferem o caminho mais seguro, Estrela Distante é a sua novela mais sóbria e fascinante.

Ps. Esse botom foi distribuído na abertura da exposição “Arxiu Bolaño 1977-2003″, no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona (o CCCB), numa matéria do Cassiano Elek Machado para a Folha http://elekistao.blogfolha.uol.com.br/2013/04/02/saludos-a-roberto-bolano/

Ps 2. O Banner do começo veio do http://www.bolanobolano.com/

Ps 3. Além das resenhas já citadas e linkadas no post, também temos um texto do “Encontro impossível” entre Roth e Bolaño, um evento muito bacana.

4 comentários em “Os 60 anos de Bolaño

  1. Show o post, até compartilhei. =)
    Acredita que ainda não li Bolaño?! Por falta de oportunidade/tempo/sei lá mais o quê mesmo. Mas já me falaram superbem dele e me indicaram bem fervorosamente como sendo um autor do qual eu iria gostar muito. E honestamente não duvido, mesmo sem nunca tê-lo lido, mas sinto essa “compatibilidade” em relação ao meu gosto literário. Ainda lerei Bolaño, com certeza!

    Bj, Livro Lab

  2. Ótimooooo post!
    Bolañomania que palavra gostosa:Bolañomania BolañomaniaBolañomaniaBolañomaniaBolañomania! hehehe
    tb nunca li 🙁
    Mas, já tá como desejado no skoob! 😀
    “A literatura para Bolaño sempre foi uma necessidade. ” Eita, é preciso ler Bolaño agora 🙂

  3. Gente,
    ainda não li nada dele e me sinto péssima. Mas vou começar já. E quero começar segundo o conselho de vcs com força em uma experiência inovadora: Detetives Selvagens ou 2666. ADORO Literatura hispanoamericana. Mas Kaleb, por favor, converse comigo sobre o Llosa e me diga quais os livros que vc considera medíocres. Fiquei curiosa. Beijos!

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