A vida privada das árvores

“Acabou de terminar um livro muito breve que, no entanto, passou vários anos escrevendo. No começo, dedicou-se a acumular materiais: Chegou a juntar quase trezentas páginas, mas depois foi descartando passagens, como se em vez de somar histórias quisesse subtraí-las ou apagá-las. O resultado é pobre: uma esquálida resma de quarenta e sete folhas que ele se empenha em considerar um romance. Ainda que à tarde houvesse resolvido deixar o livro descansando por algumas semanas, desligou a tv e começou a ler, novamente, o manuscrito.”
Página 23


Há um ano era publicado no país o comemorado Bonsai, de Alejandro Zambra. O livro é uma narrativa curta, cheia de silêncios e de uma tristeza que ao mesmo tempo que é contida, é cortante. Pois agora a Cosac Naify lança outra obra do autor, A vida privada das árvores, uma novela que dialoga diretamente com o livro anterior. Mas a forma de narrar chama atenção.

Enquanto o livro anterior é mais contido em sua narrativa, em A vida privada das árvores a impressão é que, apesar de se tratar de uma história sobre a espera, o texto corre de forma mais dinâmica.


O livro conta a história de Julián (batizado assim por um erro do escriturário, os pais queriam que o seu nome fosse Julio), que espera a chegada de Verônica, sua esposa, enquanto conta histórias para sua enteada Daniela. E as histórias são justamente sobre “A vida privada das árvores”, criadas por ele para entreter a garota. Durante essa espera, a história se divide em diferentes tempos para contar a história do casal.

E durante reflexões e lembranças, descobrimos que Julián escreve um livro. De uma forma meio heterodoxa, talvez, mas é um livro em que ele trabalha há um certo tempo (como o trecho acima). Esse seria um dos ecos – talvez o mais óbvio – de Bonsai. E acho melhor parar aqui e deixar que vocês tracem seus outros paralelos.

O que impressiona no texto de Zambra é a sua capacidade de concisão. Ele consegue dizer tanto em tão pouco. Lembro de um texto do Menezez, em que ele comenta a definição de Cortázar para romances e contos, que vou reproduzir aqui: “Ficção é como um luta de boxe com o leitor, o romance é ganha por pontos, o conto à nocaute“. Fazer a mesma comparação com o texto do Zambra foi inevitável. E o texto realmente corre como uma luta rápida, um nocaute.

O livro é dividido em duas partes. E devo dizer que apesar da rapidez e fluidez do autor, patinei um pouco na segunda parte. É quando ele idealiza ou conta o que acontecerá no futuro (essa interpretação, acredito, vai de acordo com o leitor). Demorei um pouco para comprar a ideia e embarcar nesse trecho (talvez por isso a nota que dei seja um 3 e não 4, mas enfim…)

De qualquer maneira, recomendo, se possível, uma leitura casada com Bonsai. Impressiona como um livro evoca o outro até em pequenos detalhes.


“A demora era um traço cotidiano, uma imagem estável a que se segurar.”
Página 92

A vida privada das árvores
Autor: Alejandro Zambra
Tradução: Josely Vianna Baptista
Cosac Naify
96 pgs

Um comentário em “A vida privada das árvores

  1. Eu não achei Bonsai tudo o que todo mundo falou. O livro não “me pegou” e, por isso, eu pensava em ignorar A vida privada das árvores. Agora, depois de ter lido o post, fiquei curiosa…

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