Não Falei – Beatriz Bracher

“Faz-me falta um contraponto, um irmão em nossas brigas. A marca da traição é mais leve que sua ausência. Mas tive que lidar com as duas misturadas, como se uma só. Assumi, é verdade, calei-me recusei responder à acusação jamais formulada e eternamente sussurrada. Não era apenas nojo, também isso, é verdade, um asco violentamente físico a cada vez que a autoria de um crime aparecia fantasmagórica num olhar, num comentário, nas esquivas e ausências dos que supunha amigos. Sabia que não podia deixar o cancro do rancor tomar conta de tudo, lutei contra a desconfiança e a inimizade. Mas fui sistematicamente derrotado, nos primeiros anos. (…)

Não fui um revolucionário, não participei de seu entusiasmo, nunca tive o lume de um inimigo certo. Meu ânimo era grande, iríamos mudar muito mais que o mundo, os homens, cada um por seu caminho e estávamos juntos, mesmo que eu não fosse capaz da mesma trincheira vigorosa dos movimentos. Movimento, na verdade não era sempre o nome das coisas. Os da luta armada diziam organização, fechavam-se. Hoje na periferia e nos campos os grupos denominam-se movimento. Curiosa expressão, movimento. Tudo o que se move é divino, acho que Newton teve um problema com isso.”
Página 71

Existe algo muito particular e muito impressionante ao adentrarmos no universo de Beatriz Bracher. Talvez seja um exagero, mas acabei de ler o livro Não Falei, o único que me faltava de seus 4 livros (3 romances e 1 livro de contos) e a sensação de que eu tenho ao ler sua ‘obra completa é a coesão entre todos os livros.
Não vou me estender sobre os seus outros livros (já falei do Antônio aqui), acho que a autora merece um texto só sobre ela. Hoje o texto é sobre o surpreendente e complexo Não Falei.

Narrado em primeira pessoa, conhecemos Gustavo, um professor universitário que está prestes a se mudar de São Paulo para São Carlos e já pensa em se aposentar. Ele tinha 24 anos em 1964 e essa mudança de cidade veio acompanhado de uma entrevista e uma visita do irmão. É quando ele começa a relembrar e tentar entender no que foi sua vida e principalmente no que ela se transformou.


À primeira vista, o que move toda a história é uma questão fundamental:

“Vejam então. Fui torturado, dizem que denunciei um companheiro que morreu logo depois nas balas dos militares. Não denunciei, quase morri na sala em que teria denunciado, mas não falei. Falaram que falei e Armando morreu. Fui solto dois dias após sua morte e deixaram-me continuar diretor da escola.”
Página 8

Como sobreviver e levar uma vida normal depois dessa suspeita? E não é só a suspeita, todas as pessoas ao redor acreditam que ele contou, ainda que ele diga que não.

Existe mais nessa questão do que aparenta, porque a partir dela somos apresentados a um outro contexto. Das pessoas que participaram daquela epoca de uma forma diferente, não eram combatentes diretos e muito menos eram a favor dos milicos. Gustavo era uma dessas pessoas que tinha como amigo Armando, alguém realmente envolvido na luta armada, ainda que ele consiga esconder de boa parte dos amigos.

(Penso em um livro que a Juliana resenhou recentemente, o Estive lá fora, que trata desse período da ditadura, ainda que de outra forma)

Eu já conhecia essa trama e achava que esta seria a linha principal do livro, mas a maior surpresa é saber que ainda que isso seja fundamental (como não seria?), Não Falei supera qualquer expectativa e se mostra como um dos mais complexos e intrigantes livros que eu já li na Literatura Nacional.

A partir dessa confissão de sua tortura, acompanhamos Gustavo nesse processo de mudança e no que isso significa. Ele vai deixar a antiga casa, repleta de memórias e lembranças, e tentar continuar sua vida. Nesse processo ele acaba encontrando uma amiga e ela indica uma ex-aluna que está escrevendo um romance que se passa durante a ditadura e ela quer fazer um entrevista com pessoas que viveram aquele tempo, mas o foco dela é mais especifico, ela pretende fazer um levantamento sobre a educação da época e como ela significava muito mais para as pessoas.

E essa foi a verdadeira luta de Gustavo, se reerguer depois de um fato terrível e ele resolve se dedicar de corpo e alma à questão da educação. Outro aspecto que vale o destaque é a relação da família de Gustavo (outro traço característico da obra de Bracher), principalmente entre ele, seu pai e irmão.

Mais do que tudo isso, Não Falei é um relato sobre as mudanças que ocorreram nesses últimos 40 anos. Como aquele horror afetou as pessoas de uma forma que é difícil calcular. E ainda mais importante é pensar em como nossa sociedade absorveu tudo isso.

Pelo livro ser narrado em primeira pessoa, somos submetidos a diversas mudanças na narrativa. Se em alguns momentos ele somente descreve o que está acontecendo, em outros ele parece dar uma entrevista, ou mesmo recorre a escritos de muitos anos atrás e outro modo de contar a história é através do livro inédito de seu irmão e talvez até existam outras que eu não percebi.

O fato é que poucas vezes eu li um livro tão ousado, que consegue misturar a importância da forma com o peso do tema de uma forma tão impressionante.

Não Falei é excelente, mas antes eu tenho um conselho:

Se você for começar a ler Beatriz Bracher (por que não ler?) por este Não Falei, e por acaso não se animar tanto, não desista (e se possível leia outro livro para comprovar), vai valer a pena.

Não Falei
Autora: Beatriz Bracher
Editora 34
150 páginas

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