K.

“K. tudo ouvia, espantado. Até os nazistas, que reduziam suas vítimas a cinzas, registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. É verdade que nos primeiros dias de invasão houve chacinas e depois também. Enfileiravam todos os judeus de uma aldeia ao lado de uma vala, fuzilava, jogavam cal em cima, depois terra e pronto. Mas os goim [plural de pessoa não judia; o singular é gói] de cada lugar sabiam que seus judeus estavam enterrados naquele buraco, sabiam quantos eram e quem era cada um. Não havia a agonia da incerteza. Eram execuções em massa, não era um sumidouro de pessoas.” pg. 27

Em abril de 1974 Ana Rosa Kucinski é desaparecida pela ditadura militar. Some do seu trabalho (era professora da faculdade de química da USP), não visita mais o pai… Seu marido, Wilson, some junto. Eram militantes.

Sumiram sem deixar nenhum vestígio. E deixaram aos amigos e familiares um rastro de perguntas, incertezas. E é justamente essa história, a daqueles que ficaram, que o livro explora (é bom lembrar que trata-se de uma ficção baseada em fatos reais).

A narrativa acompanha a agonia de K., o pai dessa mulher. Ao notar que ela não o visita há alguns dias, vai atrás dela na USP e descobre que ela não foi trabalhar há dias. Amigas da filha têm receio de dar mais informações. K. começa, então, uma busca para encontrá-la.


A jornada de K. o leva a todas as instâncias possíveis. O faz entrar em contato com informantes, militares, igrejas, organizações judaicas internacionais… Nesse momento também é que ele enxerga a face do regime militar que ele não conhecia, ou ignorava. E que o faz lembrar da sua militância na Polônia, quando a 2ª Guerra começava a despontar.

Essa busca faz com que K. comece a incomodar muita gente. Mas parece nunca ter sucesso naquilo que realmente deseja. A cada tentativa, quando a situação parece afunilar para alguma resposta, mais questões surgem. O quebra-cabeça parece não ter peças suficientes nunca.

É durante essa tentativa de desenrolar o emaranhado que  K. entra em contato com uma filha que não conheceu. A filha militante, que casou… Uma nova desconhecida, que traz mais elementos e angústias.

O livro mescla a história de K. com alguns capítulos de personagens externos, que nos dão pistas do que está acontecendo, quem K. incomoda e como…

O livro é um grande labirinto. Que não sabemos se encontraremos a saída. A angústia de K. e o seu total desamparo são palpáveis.

Uma narrativa curta, mas tão intensa, que sentimos o peso do que sente K. Tantos livros sobre as vítimas da ditadura são escritos. Mas poucos tratam de uma perspectiva tão pessoal.

K.
Autor: Bernardo Kucinski
Editora Expressão Popular
177 pgs

Um comentário em “K.

  1. Belo texto Ju!
    Fico pensando nesse K. e não consigo deixar de lembrar do josef k. do Processo (do Kafka) que ainda que por motivos bem diferentes, ambos buscam respostas num sistema opressor, sobre coisas fundamentais de suas vidas.
    Ainda mais essa coisa do Labirinto de k (ambos, na verdade) em busca de uma solução (será que ela existe?).
    Fiquei com vontade de ler o livro e continuar nessas divagações sem fim.

    Bj

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