Estive lá fora

“Minha atitude perante a vida e minhas ideias mais profundas são contrarrevolucionárias. Refiro-me tanto à revolução que Geraldo pretende fazer quanto ao golpe militar que chamam de revolução. Atravesso esse fogo e recebo estilhaço de todos os lados, até mesmo das pessoas que se dizem neutras, as piores ao meu ver, os verdadeiros fariseus. Lembra o apocalipse de São João? ‘Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca.’ Eu sou quente, não me incomodo de morrer queimado, porém em outro fogo. Qualquer dia lhe exponho mais claramente os meus pontos de vista.” pg 144

A primeira palavra que me vem para descrever Cirilo, personagem principal de Estive lá fora, é flaneur. Sei que essa não é a melhor descrição. Mas em muitos momentos do livro pensei nesse conceito. Nessa figura que observa, alheia… E Cirilo é um pouco isso. Mas ao mesmo tempo, quando resolve expor suas ideias, elas são mordazes, como o trecho acima.

A história gira em torno da vida de estudante quase miserável de Cirilo, que mudou-se para Recife para cursar medicina enquanto a família continua no interior do Ceará. Não gosta do curso que faz, tem conflitos éticos e ideológicos com alunos e professores, mas tenta sempre manter-se à margem, não se envolver com política. Esqueci de dizer que estamos em plenos Anos de Chumbo e seu irmão mais velho, Geraldo, saiu antes de casa para estudar engenharia. Mas ao chegar ao Recife acaba se envolvendo com o movimento estudantil e passa a ser perseguido pelos militares.

Ao mesmo tempo que vive à sombra do irmão (por pressão dos professores que conhecem a “fama” de Geraldo; dos militares, que sutilmente o seguem de longe e da família que pede a todo custo notícias do filho mais velho que há tanto tempo não dá notícias), tenta negá-lo a todo instante. Tenta ser o oposto dele.

Apesar de ser majoritariamente em terceira pessoa, a narrativa é permeada de algumas cartas que Cirilo recebe de sua mãe, as que ele manda para a família, alguns diários dele, bilhetes de amigos… Tudo para compor o perfil de Cirilo, um personagem de tantas facetas. Ao mesmo tempo que é um estudante dedicado, está cansado de sua vida, está em crise com o seu triângulo amoroso (um amor livre)…

Cirilo, sem querer, ser ser notificado, acaba se tornando informalmente o primogênito da família. É notório nas cartas que a mãe, que contam como o pai sofre a falta de notícias de Geraldo. Ele mantém um caderno onde coloca todas as notícias de presos políticos e anota comentários sobre a vida do filho. E a partir desse caderno é possível notar o quanto ele vai minguando, com comentários que beiram o delírio. Nessas cartas fica evidente a responsabilidade que a mãe coloca em Cirilo pela ruína da família. Afinal, os irmãos estão na mesma cidade, por que Cirilo não conversa com Geraldo e o traz de volta à razão e ao seio da família?

O livro, então, mostra o conflito interno de Cirilo em relação a toda essa situação. Ir ou não atrás do irmão? Entrar na militância política? Aliás, o seu pensamento político é bem diferente da dicotomia de ideais da época. Como podemos ver no trecho abaixo (em que ele conversa com um professor de Literatura):

“- Deixar passar os clássicos.
– Pode-se ler Dostoievsky?
– Pode sim, mas ninguém lê porque é difícil.
– O censores são burros. Subestimas a perturbação de livros como o de Dostoievsky e acham as cartilhas dos militantes perigosas. Eu li alguns panfletos e dei boas risadas.
O professor se admira com a conversa do rapaz. Não o imagina tão inteligente. Deseja que ele fique mais tempo, preenchendo a ausência da filha.
– Dostoievsky acreditava no surgimento de um novo homem, quando tudo se renovaria.
– Acho que está em Os Demônios, se não estou enganado.
– Isso mesmo. Está na fala de um visionário niilista, Kirilov.
– Mas esse homem é bem diferente do que prega a esquerda.
– Totalmente. Embora Dostoievsky tenha sido um pré-revolucionário russo, ele se ocupava de questões que não interessam aos marxistas.
– A alma, por exemplo.
Cirilo, que adotara uma postura séria, desejando impressionar o pai de Fernanda, ri nervoso.
– Quem é doido de falar em alma pra esses caras dos diretórios. Eu não sei o que é pior: o patrulhamento da direita ou o da esquerda.” pg 185

Além de todos esses conflitos, acrescente os dilemas amorosos: Cirilo é uma das arestas de um triângulo amoroso. E apesar do início tão livre, tão sem problemas, o ciúme começa a despontar, botando tudo a perder. E no meio desse turbilhão de sentimentos, chega a oportunidade de finalmente se encontrar com o irmão mais velho.

O encontro é talvez o momento mais tenso do livro. Enquanto há a tentativa da ternura, da preocupação familiar, há o embate direto, beirando o ódio, com tanto remorso, tantos assuntos a serem resolvidos…

Estive lá fora é um livro bem diferente do que esperava, confesso. Mas todo o clima da ditadura, do início da vida adulta, os conflitos com uma família tradicional estão lá. Aliás, essa talvez tenha sido a minha grande surpresa: não é um livro sobre a ditadura militar, apesar de o ser também. Mas é, antes de tudo, um livro sobre as mudanças tão bruscas de uma época e as consequências nas famílias, na sociedade. É também um livro, como diria o querido Menezes, de formação. Vemos a tentativa de Cirilo amadurecer e sobreviver diante de todas as dificuldades que aparecem e as que ele causa.

É um belo retrato de uma época. Traz um respiro à imagem direita X esquerda que temos do período.

Estive lá fora
Autor: Ronaldo Correia de Brito
Alfaguara
294 pgs

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