A mulher da gargantilha de veludo e outras histórias de terror

” – Sim, como explica? – perguntou o médico. – Afinal de contas, prolongamento da vida ou não, o senhor não admite que, duas horas depois, uma cabeça cortada fale, olhe e aja.
– Se eu tivesse uma explicação, meu caro doutor – lamentou o senhor Ledru – , não teria caído tão gravemente doente após esse episódio.
– Mas e o senhor, doutor – disse o cavaleiro Lenoir – , como explica? Pois de certo não acredita que Ledru tenha voluntariamente forjado a história que acabou de nos contar. Sua doença também é um fato material. 
– Ora, convenhamos, essa é muito boa! Por uma alucinação, o senhor Ledru julgou ver, o senhor Ledru julgou ouvir. Para ele é exatamente como se tivesse visto e ouvido. Os órgãos que transmitem a percepção ao sensorium, isto é, ao cérebro, podem ser enganados pelas circunstâncias. Nesse caso, eles se enganam e, ao se enganarem, transmitem falsas percepções. Julgamos ouvir, ouvimos; julgamos ver, vemos. O frio, a chuva e o escuro enganaram os órgãos do senhor Ledru, simples assim. O louco também vê e ouve o que julga ver e ouvir. A alucinação é uma loucura momentânea, que permanece gravada em nossa memória quando desaparece. Simples assim.”
Pgs 92 e 93

Alexandre Dumas ficou mais conhecido por dois grandes romances, Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo (ambos já resenhados aqui no blog). Mas, para quem não conhece muito da biografia do autor, outras obras acabam passando desapercebidas. O fato é que Dumas foi um grande escritor de folhetins, dos mais variados temas, além de ter feito uma série de peças de teatro bem sucedidas. A mulher da gargantilha de veludo e outras histórias de terror, que acaba de ser lançado aqui no Brasil, traz à tona mais uma faceta do autor: o terror e o sobrenatural.

O livro traz duas novelas: “1001 fantasmas” e “A mulher da gargantilha de veludo”. As duas, apesar de ter o foco no sobrenatural, tem estilos bem diferentes. Então vamos falar delas separadamente.

Em “1001 fantasmas”, um jovem Dumas narra a sua visita a uma pequena cidade nos arredores de Paris na temporada de caça. Lá ele acaba sendo atraído para uma cena de crime, onde conhece o prefeito do lugarejo. Depois de servir de testemunha na confissão do assassino, ele é convidado pelo prefeito para um almoço em sua casa. O almoço é povoado por visitantes excêntricos que, depois da refeição, passam a compartilhar histórias que presenciaram para provar a um médico cético sobre a prolongação da vida (após uma morte repentina, como numa guilhotina).

Nunca tinha lido nada de Dumas e essa novela me impressionou pela fluência. Normalmente livros de época são um pouco mais lentos, demora-se um pouco para que você se habitue com  linguagem. Mas este conto, apesar do grande número de notas de rodapé (e elas ajudam muito! mas já falo melhor delas…), corre, sem percebemos. É como se estivéssemos nessa roda de contadores de histórias.

O formato do folhetim fica evidente nesta novela: cada capítulo termina com um clímax, mas não o principal. Ele vai te induzir a continuar lendo (ou, no caso de quando foi feito, comprar o próximo jornal para acompanhar a história).

O mais interessante desta novela é o que há por trás dela. Ela foi escrita durante a Revolução Francesa, quando as mortes na guilhotina aconteciam todos os dias. E Dumas questiona a crueldade do ato, através das histórias dos personagens, que acreditam que a morte não acontece instantaneamente ou outras coisas mais sobrenaturais, que não comentarei para não dar spoilers. Mas a discussão sobre pena de morte já é embrionária em Dumas e, considerando a época em que ele escrevia (e o quão maciçamente ele era consumido na época) isso é no mínimo corajoso.

Em “A mulher da gargantilha de veludo”, um narrador externo conta a história do jovem Hoffmann (baseado no autor E.T.A. Hoffmann), que prestes a viajar para Paris se apaixona por uma jovem. Ele então adia a sua ida e, após alguns meses, já noivo da moça, vai fazer a viagem de seus sonhos. Porém o que ele encontra é uma cidade quase assombrada por tantas mortes na guilhotina. Mas a cidade ainda consegue esconder alguns de seus encantos…

Essa novela, apesar da forma narrativa ser bem fluida como a outra, é um pouco mais lenta. No sentido de que os acontecimentos são mais lentos, a história demora um pouco mais para se desenrolar. Mas há ecos de Fausto, de Goethe, o que dá uma aura misteriosa a partir do momento em que Hoffmann chega a Paris.

Acho que já falamos mais especificamente da coleção de clássicos da Zahar, mas não custa repetir que alguns detalhes fazem toda a diferença. A começar pela introdução. Nesta edição, ela é assinada pela autora Heloisa Prieto. Ao contrário de introduções de outras coleções, recomendo que se leia mesmo antes do livro, pois ela não estraga a história, pelo contrário, ela nos ajuda na ambientação.

Sou uma pessoa que tem relação de amor e ódio com notas de rodapé. Algumas vezes acho que elas só atrapalham a leitura, outras, que ajudam e muito. No caso desse livro, as notas são abundantes, mas fico com a minha segunda opinião. Afinal, Dumas usa muitas referências da época, fala sobre a linha da monarquia francesa (coisas que não tinha tanto conhecimento, então elas foram uma mão na roda). E, além disso, elas trazem muitas curiosidades, pois muitos personagens de Dumas são inspirados em seus amigos e assistentes (ele tinha muitos parceiros para escrever suas peças, além de assistentes que faziam pesquisas históricas para que o autor pudesse ambientar bem suas histórias).

A mulher da gargantilha de veludo e outras histórias
Autor: Alexandre Dumas
Tradução e notas: André Telles e Rodrigo Lacerda
Editora Zahar
366 pgs

Ps- Nossas resenhas de Dumas: Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo.

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