Aquecimento FLIP – J.M.G. Lé Clézio

LeClezio
Quando O Nobel de 2008 foi divulgado para Lé Clézio, o mundo literário brasileiro já fazia aquela cara de questionamento, who the hell is Lé Clézio. Na época com um livro em alta, O Africano, pensávamos todos que era mais um ilustre desconhecido que o Nobel revelava ao mundo internacional como o ganhador de 2011, Thomas Transtörmer, entretanto a história e a vida nos ensinam que nem sempre nossa perspectiva é a mais correta. Comecei a duvidar dessa informação quando acidentalmente esbarrei na lista de obras do escritor e me deparei como uma gigantesca obra cuja a sombra nós nem temos ciência, tanto é que a grande obra-prima até onde o horizonte da minha investigação conseguiu alcançar… foi traduzida ao português brasileiro em 1987 pela Brasiliense e continua espera de reedição: Hello Editoras!

Jean-Marie Gustave Lé Clézio, JMG para os íntimos é quase um escritor africano e só isso me faz simpatizar com ele. Não porque escreveu um livro com esse titulo, mas porque tem uma ligação muito com seu país Natal, A ilha de Maurício. Na verdade ele é filho de uma francesa, Simone Lé Clézio, e de um cirurgião mauriciano, Raoul Lé Clézio. Os sobrenomes são iguais porque seus pais eram na verdade primos de uma antiga família de emigrantes franceses que residia na Ilha de Maurício, e além desse fato incomum, há também a estranha nacionalidade escritor tanto francesa quanto mauriciana, na época que essa ilha era colônia Inglesa!
Sim são muitas nacionalidades e isso vai constituir uma parte importante da obra posterior do escritor. Além dessa confusão cultural, a família de JMG morou por um tempo na Nigéria, fato sempre rememorado nos livros autobiográficos, em especial Onitsha. Além disso o escritor serviu o exército francês na década de 60 na Tailândia, mas foi expulso por protestar contra a prostituição e não escrever um livro sobre os “prazeres” desse lugar como um certo escritor francês que furou a Flip passado, mas não vamos citar nomes nessa digressão, o que realmente importa é que Lé Clézio já demonstrava uma característica de sua prosa que é preocupação com os temas que o cercam e apesar de sua obra passar por algumas fases, o tema do meio ambiente sempre está presente, antes mesmo de virar modinha como nesse nosso admirável mundo Novo.
Após a expulsão, ele cumpriu o resto de seu serviço militar no México, país que desenvolveu um outro tipo de afeto sendo até mesmo o objeto de seu doutorado, que alias, é precedido por seu mestrado sobre Henri Michaux, poeta que eu comentei brevemente na ultima resenha.E desde de os anos 80 até os dias de hoje o escritor se tornou um grande viajante do mundo passando por diversos países, em especial a Índia por onde a sua obra literária cresceu muito.
A obra de Lé Clézio é bem ampla, compreendendo livros infantis e grandes ensaios, mas a medula são seus romances e recentemente os cadernos de viagem. Os romances tem uma fase a parte que revelou o escritor com o Le Procés-Verbal (O interrogatório), um romance que que lida com um personagem estranho Adam que tenta se encaixar no mundo que vê, mas acaba sempre encontrando a solidão e o vazio. Essa fase que dura de 1967-1975 é o ativismo formal do escritor querendo quebrar todas as regras possíveis dentro da forma da narrativa. São normalmente descrita como narrativas da Insanidade na “linguagem e na escrita”. Nessa época ele ficou famoso por ser comprado a Perec (UAU!) e ser cultuado por gente pequena como Michel Foulcualt.
Mas a  obra teve um desdobramento claro durante o hiato de 1975 à 1980, data da publicação de Desert (Deserto) que é referido como o grande romance do escritor. Trata  de uma análise sociológica do continente colonial africano do começo do século, mas visto pelos de uma criança Lalla, a protagonista, que tem uma jornada árdua pelos desertos africanos, tentando encontrar um amor e fugindo de uma vida árdua e ainda apor cima grávida, apesar de ser clareamento uma criança. A questão da infância nesses países, muito provavelmente pela sua experiência no exército francês, vai ter um grande peso nos personagens infantis, assim como o questão da jornada como em Peixe Dourado  e o choque do Oriente/Ocidente, Europeu/Africano que é visto na obra dos anos 2000 como o clássico moderno: O Africano, que é um misto de ficção pois o narrador cria o personagem do cirurgião na Segunda Mundial que é o espelho de seu pai, e a volta para casa na África. Só o fato do pai encontrar o filho quando este tem 8 anos, assim como na vida real, põem aquela dúvida sobre a narrativa biográfica e o quanto ela pode ser real. Pois é explicitamente um autobiografia, e é assim definida pelo autor, mas também  tem muito elementos de ficção em sua constituição.
Outra contribuição importante são seus cadernos de viagens que exploram outras culturas, dos quais já saíram vários ensaios sobre o oriente, a África e as diferenças culturais entre os povos, além de em francês ele ser um grande tradutor do indiano.
No mais. O que temos publicado no Brasil é uma outra narrativa da briga do ser humano contra a natureza e os Caminho sofridos que são percorridos pela protagonista em Peixe Dourado, uma narrativa de peripécias juvenis na Ilha de Maurício em A Quarentena. O seu último romance ambientado na Paris dos anos 20, Refrão da Fome, novamente com uma protagonista juvenil feminina e sua visão da queda moral e financeira da família. E ainda um biografia dos pintores, Diego e Frida, e um pequeno livro juvenil de narrativas marítimas, Pawana. Para a Flip, História do pé, o novo livro de contos que reúne narrativas curtas tantos fantásticas quanto do cotidiano, deve chegar aos olhos do público. Aí vai ficar falando só 90% do resto da obra.
Clézio é um autor velho prestes a ser descoberto por nós, ele para mim é o maior autor do Evento da Flip e os fãs de Franzen podem torcer o nariz, mas espero que esse seja o começo para ver toda a obra de Lé Clezio publicada, porque por mais informação que tenha tentado colocar no texto, muitas delas vieram de fontes externas, vide que quase nada crítico tem por aqui e eu não leio francês. Então Hello Editoras para Lé Clézio.

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