Batismo de sangue: Guerrilha e morte de Carlos Marighella

Nesta semana santa resolvemos polemizar um tiquinho. O post de ontem, da Amanda, na verdade, será o mais polêmicos dos nossos 3 textos. Mas o post de hoje e de segunda-feira dialogam entre si… de alguma forma. Vamos acompanhar.

O livro de hoje fala como uma parcela da igreja católica se associou com grupos de esquerda durante a ditadura militar. Batismo de sangue: Guerrilha e morte de Carlos Marighella é um relato contundente sobre o envolvimento desse grupo da igreja e as suas consequências.

Não sou muito fã de Frei Betto (por motivo ideológicos ou o que queira), mas devo admitir que ele sabe escrever muito bem. O livro, apesar do tema indigesto, é simples de ler, ele flui… Essa uma das características que mais prezo em livros de não-ficção. É preciso fugir da burocracia e da elegia exagerada e tornar o tema inacessível para quem for ler. O segundo caso poderia muito bem acontecer com Frei Betto, pois o livro trata de dois personagens da história com quem ele conviveu e que admirou muito: Carlos Marighlela e Frei Tito. Marighella é uma figura que já faz parte do imaginário, porém Frei Tito é um pouco desconhecido. O livro mostra como os dois personagens são próximos.

O relato mostra como um grupo de seminaristas e uma parte da igreja de São Paulo auxiliou em diversas ações de grupos de esquerda contra a ditadura militar, principalmente a ALN (Ação Libertadora Nacional), de Marighella. Frei Betto e Tito, que faziam seminário juntos, começaram a se engajar e a participar de encontros e fazer algumas ações para o grupo. Não vou ficar dando muito contexto histórico porque posso me embanar, mas esse “encontro” da igreja com os movimentos de esquerda se deu principalmente pela Teologia da Libertação, uma corrente da igreja católica que interpretava os ensinamentos de Jesus de uma forma mais social.


O livro é dividido em duas grandes partes: começa com uma “biografia” de Mariguella, sua militância e depois entra na participação dos seminaristas na luta política. Essa segunda parte, apesar de falar de outros padres, freis e seminaristas, foca em Tito, como já disse. Mas o que difere Frei Tito dos outros membros da igreja que participaram? Além de ser amigo próximo de Frei Betto, de um conhecimento político amplo e ideais bastante claros, Tito (assim como outros seminaristas) foi preso, duramente torturado (o batismo de sangue do título se refere ao estado em que Tito foi visto por um outro membro da igreja num dos porões da ditadura) e, depois de exilado, cometeu suicídio.

Frei Betto tenta reconstruir esse período em que Tito viveu no exílio na França. Mostra um homem totalmente devastado, arrasado por aquilo que viu e que sofreu. Entre suas crises de perseguição e de depressão em um convento, Tito acaba cometendo suicídio e torna-se uma espécie de símbolo da igreja católica que se comprometeu com o povo contra a ditadura.

O que é contado por muitas vezes é desagradável de se ler, tamanha a crueldade do delegado Fleury e de outros agentes do DOPS e da polícia militar. Ainda assim, é um livro esclarecedor. E traz justamente uma parte pouco explorada dessa história de resistência, que é desta parcela da igreja católica, que muitas vezes ajudou e participou de ações políticas. Mas não vamos esquecer que muitas vezes a igreja foi condizente com o regime militar… Ou o que foi, pra ficar no exemplo mais óbvio, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade? Como em toda organização, a igreja tem membro mais conservadores e outros mais liberais. O livro trata só do segundo caso, o que acho estranho (pouco se fala de barreiras dentro da igreja para o que os padres, freis e seminaristas encontraram para militar). Mas ainda assim vale a leitura para termos um painel de toda a situação.

PS- Em 2007, foi produzido um filme baseado no livro. Como na maioria das vezes, perde-se muito nessa transição, mas ainda assim, achei um bom filme. No papel de Tito, Caio Blat, que considero um ótimo ator.

Trailer do filme:

Batismo de sangue: Guerrilha e morte de Carlos Marighella
Autor: Frei Betto
Editora: Rocco
416 pgs

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