Terra dos Homens – Antoine de Saint-Exupéry

 
“Temos, com efeito, o hábito de esperar durante muito tempo os encontros. De Paris a Santiago do Chile, esses companheiros de linha estão espalhados pelo mundo, um pouco isolados, como sentinelas que quase não se falam. Só o acaso das viagens reúne aqui e ali os membros dispersos da grande família profissional. Em volta de uma mesa, uma noite em Casablanca, em Dacar, em Buenos Aires, retomam-se, depois de anos de silêncio, conversas interrompidas e reatam-se velhas lembranças (…)
Mas pouco a pouco descobrimos que não ouviremos nunca mais o riso claro daquele companheiro; descobrimos que aquele jardim está fechado para sempre. Então começa nosso verdadeiro luto, que não é desesperado, mas um pouco amargo.
Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido. Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantas horas más vividas juntas, de tantas desavenças, de tantas reconciliações, de tantos impulsos afetivos. Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um carvalho na esperança de ter, em breve, o abrigo de suas folhas.
Assim vai a vida. A princípio, enriquecemos; plantamos durante anos, mas os anos chegam em que o tempo destrói esse trabalho, arranca essas árvores. Um a um, os companheiros nos retiram sua sombra. E aos nossos lutos mistura-se então a mágoa secreta de envelhecer.”
Página 32
A simples menção ao nome do autor Antoine de Saint-Exuspérry vem à memória seu livro mais conhecido: O Pequeno príncipe.
Não é possível deixar de relacionar o autor e seu livro famoso, citado incansavelmente em Orkut, Facebook e afins. Sendo ainda o favorito de cada miss, pelo menos é o que elas falam.
Lembro que li a história do Pequeno Príncipe há pouco mais de sete anos, presente de uma amiga muito querida que me perguntou se eu sabia distinguir um elefante sendo engolido por uma jibóia e um chapéu. Já era bem grandinho na minha primeira leitura e fiquei muito impressionado com essa história tão simples e ao mesmo tempo tocante.
Depois de tanta exposição das mais variadas formas, é difícil assumir que você gosta do Pequeno Príncipe sem receber em troca um certo olhar de desdém e a certeza de que você já não é levado muito a sério. Mas tudo bem, a vida é assim.

Me veio o nome de alguns autores que estão ficando ‘famosos’ nas redes sociais como Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, que em meio a tantas citações, as pessoas acabam querendo parecer muito mais profundas do que talvez sejam. E às vezes até por conta disso não realiza o óbvio: a leitura dos livros dos próprios. Desculpem por todas essas digressões, mas é que me veio na minha mente autores que de certa forma são completamente reféns de seu próprio sucesso.

Isso tudo pra enfim começar a falar do livro de hoje: Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry.
Publicado originalmente em 1939, esse livro é uma mistura de memórias/livro de aventura da época que o próprio autor era piloto de algumas linhas que faziam o correio e percorriam o deserto do Saara, America do Sul e Europa.
É maravilhoso perceber a paixão e a fragilidade em realizar essa verdadeira proeza ao percorrer os desertos, os Andes, os mares em uma máquina que podia te deixar na mão a qualquer momento
“Naquele tempo os motores não ofereciam a segurança dos motores de hoje. Muitas vezes falhavam de repente, sem prevenir, com uma grande barulheira de louça quebrada. E a gente voltava os olhos para a crosta rochosa da Espanha onde eram raros os refúgios” página 14
Mas, ainda mais que um livro de memórias, é uma verdadeira reflexão sobre a alma humana colocada em circunstâncias extremas que extrapolam o mundo como conhecemos.
O livro é dividido em oito capítulos: A linha, os Companheiros, O Avião, O Avião e o Planeta, Oásis, No deserto, No centro do deserto e, por fim, Os Homens.
Todos os capítulos se ligam por um fio simples e delicado.
O começo pelas descrições dos lugares destinados, logo em seguida pela parte mais emocionante do livro, um relato misturado com uma homenagem a dois aviadores fundamentais para o jovem Exupéry: Mermoz um dos fundadores da linha francesa Casablanca-Dacar (através do Saara), e depois a linha Buenos Aires a Santiago (através dos Andes) e principalmente Guillaumet (a quem o livro é dedicado), companheiro que segue os passos de Mermoz e também acaba se envolvendo em terrível acidente nos Andes. 
“Você compreende, sem alimento, depois de três dias de marcha, meu coração não devia estar batendo com muita força… Pois em certo momento, quando eu progredia ao longo de uma encosta vertical, cavando buracos para enfiar as mãos, o coração me caiu em pane… Hesitou, deu uma batida… Uma batida estranha… Senti que se ele hesitasse um segundo mais seria o fim. Fiquei imóvel, escutando… Nunca – está ouvindo? -nunca, num avião, me senti tão preso ao ruído do motor como, naquele momento, às batidas do meu próprio coração. E eu lhe dizia: Vamos força!Veja se bate mais … garanto-lhe que é um coração de boa qualidade. Hesitava mas depois recomeçava, sempre … Se você soubesse como tive orgulho do meu próprio coração!” (página 40)
Na metade do livro Exupéry conta a história de quando ele caiu com seu companheiro de vôo Prevot no deserto do Saara (talvez o mais terrível de todos, ou pelo menos o que ficou no nosso imaginário) e ficaram vagando por mais de 14 dias até serem encontrados. Um relato sobre o desespero e um pouco sobre a compreensão do homem frente ao deserto.
Relutei em fazer o elogio que vou colocar agora, mas o livro é muito poético com frases e situações que te fazem refletir e imaginar um mundo que já passou, mas que podemos tirar bons exemplos nesses tempos tão corridos e complicados.
O livro tem a tradução do grande Rubem Braga (que manteve toda a sutileza do autor), uma pequena introdução do Armando Nogueira e foi reeditado há pouco tempo, em uma das coleções mais legais que eu já vi, a 40 anos / 40 livros da Nova Fronteira. Vai atrás logo porque não sei quanto tempo vai durar essa edição (junto com ela ainda dessa coleção saíram A Náusea do Sartre, Flores do Mal do Charles Baudelaire, o Homem sem qualidades do Musil entre outros livros… vale a pena conhecer, mas falarei dela num futuro próximo).
Pra quem gosta de um livro de memórias (com certa melancolia) e proezas do passado, essa é uma ótima opção.
Pra quem não suporta o Pequeno Príncipe e tem curiosidade (ou dúvida) sobre o autor, essa pode ser uma escolha interessante e ousada.
Ps. Fato triste-curioso é que o próprio Exupéry morreu em uma missão de reconhecimento na Segunda Guerra Mundial partindo de Córsega. Seu corpo nunca foi encontrado embora algumas pessoas confirmam que viram o acidente e um alemão que supostamente atingiu o avião do escritor. Mistério.
Terra dos Homens
Antoine de Saint-Exupéry
Tradução de Rubem Braga
Editora Nova Fronteira
139 páginas

5 comentários em “Terra dos Homens – Antoine de Saint-Exupéry

  1. Essa obra está entre as minhas top 10. Cada um retira dela algo que certamente acompanhará o caminho da vida. Em meu eu marcou a passagem agoniante e ao mesmo tempo poética acerca da sede, a luta pela vida. Durante a agonia se descobre uma laranja. Na divisão da laranja com o amigo em agonia – parafraseando o autor – uma das mais belas descrições sobre o simples, aquilo que realmente importa: “os homens não sabem o que são as metades de uma laranja”. Fantástico. Poucas coisas me tocaram tanto quanto essa passagem. Viva para sempre Saint-Exupéry. O mundo precisa saber mais sobre laranjas. Drico.

  2. Eu li a primeira vez com dezoito anos e como gostei. À medida que fui amadurecendo reli inúmeras vezes. Cada vez gostava mais e me identificava com ele. Era como se fôssemos já grandes amigos. O que mais me tocou foi sua observação, viajando num trem de refugiados poloneses; muita miséria e muita sujeira ele observava. Por fim considerou: Não é a miséria, nem a sujeira que mais me chocam, é em cada um deles, Mozart assassinado.

  3. E quando ele deitou no chão olhou estrelado e pensou que tinha necessidade achar tudo simples: nascer é simples, crescer é simples, morrer de sede é simples, Depois de resolverem abandonar o avião seguiram a mesma direção Guillaumet, quando preso em uma tempestade ficou circundando um lago cuja localização conhecia até a pane de gasolina, então pousou e dormiu entre as cartas, As autoridades diziam que se ele tivesse sobrevivo à queda não teria sobrevivido à noite, mas sobreviveu. O Livro todo é lindo e tocante, cheio de verdades profundas.

  4. Realmente este título do Antoine é delicioso de ler. Faço minhas as palavras do resenhista: “Pra quem gosta de um livro de memórias (com certa melancolia) e proezas do passado, essa é uma ótima opção.”. Estou com a edição de 1939, um primor. Felizmente a biblioteca da escola pública de meu filho em São Paulo conta com um exemplar. E arrisco dizer que talvez se não fosse pelo O Pequeno Príncipe, um livro muito importante em minha vida, eu não teria chegado à Terra dos homens.

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