As coisas – um romance dos anos sessenta

“Essa ausência de simplicidade, de lucidez quase, era característica. O conforto – isso talvez era o mais grave – lhes fazia falta cruelmente. Não o conforto material, objetivo, mas uma certa davesenvoltura, uma certa descontração. Tendiam a ficar excitados, crispados, a ser ávidos, quase ciumentos. O gosto que tinham pelo bem-estar, por uma situação melhor, se traduzia no mais das vezes por um proselitismo idiota: então discorriam muito tempo, eles e seus amigos, sobre a genialidade de um cachimbo ou de uma mesa de centro, e os transformavam em objetos de arte, em peças de museu. Entusiamavam-se com uma mala -essas malas minúsculas, extraordinariamente planas, de couro preto levemente granuloso, que vemos nas vitrines das lojas perto da Madeleine, e que parecem concentrar todos os supostos prazeres de viagens-relâmpagos, para Nova York ou Londres. Cruzavam Paris para ir ver uma poltrona que lhes tinham dito que era perfeita.E até, mesmo conhecendo seus clássicos, eles às vezes hesitavam em vestir uma roupa nova, de tal forma lhes parecia importante, para a excelência de sua apresentação, que primeiro ela tivesse sido usada três vezes. Mas os gestos meio sacralizados que faziam a se entusiasmar diante da vitrine de um alfaiate, de uma modista ou de um fabricante de sapatos, no mais das vezes apenas conseguiam torná-los um pouco ridículos.”
pgs 19 e 20

Ler Georges Perec é uma aventura. Ainda mais se o máximo que você sabe sobre ele é que muios amigos seus gostam demais de  Vida – modo de usar. Foi com esse espírito, e nenhuma informação adicional, que encarei As coisas – uma história dos anos sessenta.

O primeiro estranhamento acontece com a forma narrativa, com uma mistura de tempos verbais, que confunde e te faz pensar quando (e se) essa história se passa. Será que não é apenas uma projeção de um futuro? Enfim, cada um tirará suas próprias conclusões.

Outra coisa que chama a atenção logo de cara é que, antes de sermos apresentados ao casal da história (Sylvie e Jêrome), temos uma longa e detalhada descrição do apartamento deles. Cada cômodo, cada móvel e objeto de decoração. A partir daí, já percebemos o culto, a extrema importância das “coisas” do título. Engraçado notar que depois, quando finalmente somo apresentados ao casal, eles são definidos (além da profissão que exercem) apenas pelas roupas e objetos que possuem. Nada sobre o caráter, os sentimentos… Isso, fica por conta de sua digressão.

O livro possui essa série de estranhamentos, desconfortos. É como se estivéssemos diante de uma crônica de um tempo. Não há nada muito explícito e, segundo li num post do blog de Luciano Trigo sobre o livro (que você lê aqui), a sua intenção é apenas mostrar uma geração, ou um comportamento. Mas, talvez pela minha leitura, o que vejo é uma certa crítica, com um humor cínico quase, ao comportamento apresentado pelo casal e seus amigos (como podemos ver no trecho acima).


Talvez a minha leitura seja um pouco tendenciosa, mas não tem como não ver crítica. O romance/crônica se passa no início dos anos 60 em Paris e passa longe do que conhecemos dos jovens parisienses do finalzinho dessa mesma década. O comportamento aqui é justamente era esse culto aos objetos, ao estados e a essa vida cheia de pequenos vícios e conversas fúteis.

“Viviam um dia de cada vez; gastavam se dificuldade; gastavam em seis horas o que tinham levado três dias para ganhar; volta e meia pediam emprestado; comiam umas batatas infames, fumavam juntos seu último cigarro, às vezes procuravam durante duas horas um bilhete de metrô, usavam camisas deformadas,escutavam discos arranhados, andavam de carona, e ficavam, ainda com demasia frequência, cinco ou seis semanas sem trocar os lençóis. não estavam longe e pensar que, afinal de contas, essa vida tinha seu encanto.” pgs 56 e 57

Há um certo crescimento dos personagens durante a narrativa, mas ainda assim, vejo como um certo ceticismo da parte deles. Não há vontade de crescer e, quando finalmente ela existe, não passa de um clichê: a vida em outro país, jogar tudo pro alto… Mas, apesar dessa virada, o que temos é quase a repetição dos mesmo comportamentos. A diferença é que o culto é a outros lugares, agora mais longínquos. O clima de tédio de resignação nos segue durante quase todo o livro.

“O inimigo era invisível. Ou melhor, estava dentro deles, os tinha apodrecido, gangrenado, estragado. Cabia-lhes pagar o pato. Pequenas criaturas dóceis, fiéis reflexos de um mundo que zombava deles. Estavam enfiados até o pescoço num bolo do qual nunca mais teriam mais migalhas.” pg 66


E é engraçado que mesmo acompanhando esse casal por um período, não sabemos muito sobre eles. Eram felizes? Tinham outros sonhos? Acho que isso cabe novamente ao leitor. E essas perguntas ficam mais em aberto ainda com a segunda virada da história, já quase no final do livro. Mais um clichê? Mudarão de vida? Georges Perec não nos dá em momento algum respostas. Por que agora seria diferente?

E, no fim das contas, do que a vida do casal difere dos dias de hoje?  Acho que a força maior do livro é justamente essa: ele incomoda, te faz pensar, observar comportamentos e ideias.

As coisas – Um romance dos anos sessenta
Autor: Georges Perec
Tradução: Rosa Freire d”Aguiar
Companhia das Letras
120 pgs
Mais informações aqui

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