Sombra do Vento


“Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros se erguia da base até a cúspide, desenhando uma colmeia em cuja trama viam-se túneis, escadas, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma biblioteca gigantesca, de geometria impossível. Olhei para meu pai, boquiaberto. Ele me sorriu, piscando o olho.
– Daniel, bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos.
(…)
– Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. (…) Ninguém sabe ao certo desde quando existe ou quem o criou. Conto a você o que me contou meu pai. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, nós, guardiões, os que conhecemos este lugar, garantimos que ele venha para cá. Neste lugar, viverão para sempre, esperando chegar algum dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja, nós os vendemos e compramos, mas na verdade os livros não têm dono. Cada livro que você vê aqui foi o melhor amigo de um homem. (…)
– É hábito nosso, da primeira vez que alguém visita este lugar, que escolha um livro, aquele que preferir, e que o adote, garantindo assim que nunca desapareça, que se mantenha vivo para sempre. É uma promessa muito importante. Para vida afora – explicou meu pai. – Hoje é a sua vez.
(…) Talvez o acaso ou seu parente elegante, o destino, mas naquele mesmo instante percebi que já tinha escolhido o livro que ia adotar. Ou talvez devesse dizer, o livro me adotaria. Ele se destacava timidamente no canto de uma estante, encadernado numa capa cor de vinho e sussurrando seu título em letras douradas que brilhavam na luz vinda da cúpula no alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com as pontas dos dedos, lendo em silêncio: ‘A sombra do vento’ JULIÁN CARAX” 
pgs 9 e 10

O trecho acima (mutilado por mim por razões de espaço) é a introdução de uma história cheia de reverses, reviravoltas e troca de estilo. Além disso, é a introdução de uma bela homenagem aos livros e seu poder na vida das pessoas.

A Sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón, se passa após a 2ª Guerra Mundial, quando a Espanha já está sob o poder totalitário do General Franco. E mostra todo o amadurecimento de Daniel Sempere, o garoto que, aos 10 anos, descobriu no Cemitério dos Livros Esquecidos o romance de Julián Carax. Depois de uma ávida leitura, o garoto fica curioso em relação ao autor, quer ler outros livros dele. Mas parece que sua obra é um grande mistério, que envolve, um homem sinistro que tem como objetivo queimar toda obra de Carax.

Porém, a curiosidade de Daniel por Carax não morre nesta informação. Na verdade, o interesse pelo autor e sua obra fica ainda maior e torna-se um objetivo de vida: desvendar o que há por trás dos seus livros sumidos, do autor que quase não se tem mais rastro (mesmo ele tendo vivido na Espanha poucos anos antes de Daniel descobrir o livro).

E durante essa investigação, vão surgindo os personagens mais diversos em situações igualmente diversas. E aí que está o que eu disse lá no início do texto, de ser um homenagem aos livros, pois Zafón passeia por estilos de narrativas: há romance, mistério, policial, aventura… E nada se atropela, tudo tem seu lugar.

Porém, talvez pelo tantos de reviravoltas que o livro dá, em algum momento você acha que já desvendou o mistério… Aí, uma nova virada nos trás informações novas e você acha que estava muito errada. Mas ai, no fim das contas você estava certa o tempo todo… Pois é, talvez por tantas tramas e subtramas, o mistério principal tenha ficado simples demais. Ou é minha mania de tentar antecipar livros de mistérios e policiais (que o Menezes comentou quando falou de Os homens que não amavam as mulheres)…

Enfim, nada que vá prejudicar a leitura, que apesar da aura de mistério, de tensão em alguns momentos, tem uma leitura tao fluida, gostoso de ler mesmo. Como nos bons livros, que o autor quer homenagear, é como se alguém está do nosso lado, nos contando aquela história…

A sombra do vento
autor: Carlos Ruiz Zafón
tradução: Marcia Ribas
Editora Suma de Letras
399 pgs

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