A chuva antes de cair – Jonathan Coe

“Fui me juntar a elas, mas Rebecca não se voltou ao ouvir meus passos no cascalho. Ela protegeu os olhos e mirou as montanhas e disse:
– Olhe só aquelas nuvens. Se vierem para cá, vai cair uma tempestade.
Thea ouviu o comentário: ela sempre foi rápida para notar mudanças de humor – toda vez me surpreendia ao me dar conta da criança sensível que ela era, sempre sintonizada nos sentimentos adultos, o que a levou a perguntar:
– É por isso que você parece triste?
– Triste? – disse Rebecca, virando-se para mim. – Eu? Não, não ligo para chuvas de verão. Na verdade, eu gosto delas. São o meu tipo preferido.
– O seu tipo preferido de chuva? – disse Thea. Lembro que ela franzia a testa e ponderava aquelas palavras, e então anunciou: – Bem, eu gosto da chuva antes de cair.
Rebecca sorriu, mas eu disse (penso que muito pedantemente):
-Mas antes de cair, querida, não é realmente chuva.
Thea falou:
-O que é, então?
E eu expliquei:
-É só umidade, na verdade. Nuvens úmidas
Thea olhou para o chão e se concentrou, de novo, na organização das pedrinhas da praia: pegou duas delas e começou a bater uma contra a outra. O som e a sensação de fazer isso pareciam agradá-la. Continuei:
-Veja, a chuva antes de cair não existe. Ela tem que cair ou então não é chuva. – Era uma bobagem argumentar sobre isso com uma menininha; eu já lamentava mesmo ter começado aquilo. Mas Thea não parecia estar tendo dificuldades para entender a coisa; pelo contrário – depois de alguns momentos, ela olhou para mim e balançou a cabeça, pesarosa, como se fosse um teste para sua paciência discutir aqueles assuntos com uma tola.
-Claro que não existe – ela disse. – É por isso que é o meu tipo favorito. Mesmo as coisas que não são reais podem deixar a gente feliz, não podem? – Então ela correu para a água, sorrindo, deliciada por ver que sua lógica havia conquistado uma tal insolente vitória.”
Página 153
Adoro fotografias. Imagino que todas as pessoas do mundo gostem de fotografia, então deixa eu tentar explicar porque eu gosto tanto. Fico com a sensação de que nas fotos é como se roubássemos um segundo do tempo, o que é algo para celebrar porque normalmente ele (o tempo) é impiedoso e egoísta.
E esse livro tem uma pequena história curiosa de uma escolha por dois motivos fúteis:
1º – A capa é linda.
2º – Acho o título um dos mais lindos que eu já vi (outro que eu gosto: Uma casa no fim do mundo).
Agora que eu já confessei isso, vamos ao que interessa, ou seja, A chuva antes de cair do inglês Jonathan Coe.

O livro começa com Gill recebendo a noticia que sua tia Rosamond acabou de morrer, e ela recebe a notícia com certo alívio pelo fim do sofrimento. Por ser próxima dela, é encarregada de cuidar dos pertences e preparações para o velório.
Até ai nada demais, cenas cotidianas de uma família comum. Ela viaja até a casa de Rosamond onde logo ela se perde em meio a lembranças de outro tempo. Junto dos pertences da tia existe um pacote com um recado:
“Gill –

São para Imogen

Se não conseguir encontrá-la, ouça-as você mesma.”
Ela se esforça para lembrar quem seria Imogem e se lembra de encontrar, há muitos anos, uma menina cega que veio fazer uma visita a Rosamond no seu aniversário. O maior problema é como encontrar uma pessoa dessa maneira?
Gill acaba não resistindo e junto com as filhas começa a ouvir as fitas e logo todas estão hipnotizadas, fascinadas com a história que a tia está contando (existe ai uma sensação estranha de ter uma história narrada por alguém que já morreu, mas acho que é impressão minha), que é sobre Rosamund, Imogen e um relato sobre a própria família de Gil.
A voz de Rosamond começa a contar porque ela fez as fitas, fez para Imogen entender o que aconteceu com a família dela. E ela resolve fazer isso de uma maneira inusitada: a partir de 20 fotos tirada ao longo dos anos, ela vai tentar recriar tudo o que acontecia nelas e, dessa forma, conseguir explicar a história trágica da família.
Começa contando a infância da pequena Rosamond, sua amizade (?) com a terrível Beatrix (Poucas vezes odiei tanto um personagem como ela, Bitch!), que no final das contas teve um papel fundamental em toda a história, afinal essa é a avó de própria Imogem. Não sigo adiante para não estragar as surpresas.
Todos os capítulos começam com uma foto e a descrição de todo o momento, e é impressionante como você fica cada vez mais intrigado para saber o que aconteceu. Afinal, um recurso simples, mas muito eficiente, e se pararmos para pensar, as fotos talvez sejam o retrato exato do momento, mas em alguns momentos elas podem ser enganosas. 
A forma como a trama vai sendo desenvolvida é brilhante. Poucas vezes li um livro tão bonito, mas ao mesmo tempo tenso, cheio de texturas e personagens que até mesmo pelos seus erros acabam sendo ainda mais humanos.
Nunca tinha lido nada do inglês Jonathan Coe, mas depois desse vou atrás de outros.
Ps. Talvez não tenha nada a ver, mas enquanto eu lia A Chuva antes de Cair no metrô, sentido Zona Leste, precisamente na estação Brás, sou interrompido por uma senhora de quase 50 anos que estava lendo o mesmo livro! Eu sei que pode parecer bobo, mas ele não é um best-seller, foi lançado há quase três anos, por isso achei uma coincidência incrível. Ela disse que tinha pego numa dessas bibliotecas do Metrô, e que estava achando muito emocionante, especialmente a maneira que ele descrevia as fotos. Adorei o encontro, um pouco incomum
A chuva antes de cair
Jonathan Coe
Tradução de Christian Schwartz
Editora Record
257 páginas

5 comentários em “A chuva antes de cair – Jonathan Coe

  1. Linda capa, lindo título. Também queria muuuuuuuito ter mais horas livres para poder ler todos os livros que já estão na minha lista. E esse com certeza entrou para ela!
    Flávia Cardoso.

  2. Primeiro parabéns pelo blog. Não o conhecia e desde que entrei nele pela primeira vez (coisa que se deu a mais ou menos uma hora atrás) não consigo parar de lê-lo.
    Depois, fiquei muito interessado nesse livro. Gosto muito do Jonathan Coe, embora só tenha lido um livro dele (que por acaso caiu na minha mão numa dessas feiras de livro da vida)que é o “Legado da família Winshaw”. Tentarei ler este também.

    Abraço
    Vinícius Lopes

  3. Acabei de ler “A chuva antes de cair” e achei um livro lindo! Sempre passo em um sebo perto do meu serviço e quando eu vi esse livro, peguei sem pestanejar.
    A parte que ficou mais marcante foi a parte a seguir: Pág 66: “(…) que nunca se subestime o que deve sentir alguém que se sabe indesejado pela mãe. Não por qualquer um, pela sua mãe – a pessoa que o trouxe ao mundo! Tal sentimento corrói a auto-estima e destrói os próprios alicerces da existência. É muito difícil ser inteiro depois disso”.
    Obrigada pela recomendação!
    Bjs

  4. Pingback: 4 livros para morrer de tristeza | O Espanador

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