Tirando o pó: O debate sobre quadrinhos

Antes de começar o texto de hoje, vou fazer uma pequena introdução.

A partir de agora, todos os domingos o blog trará a coluna “Tirando o pó”. Nós, da equipe do blog (e convidados também, por que não?), nos revesaremos para escrever sobre temas relacionados ao mundo do livro em suas diferentes formas. Assim, pretendemos abrir um novo espaço de discussão, já que durante os dias da semana focamos mais nas resenhas dos livros. Vocês são mais que bem vindos para participar/dar sua opinião…
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No fim do mês passado, aconteceu aqui em São Paulo um evento que ao mesmo tempo já demorava pra acontecer e ainda assim ainda é tão raro… Foram as 1as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos na USP. Lá, durante três dias, uma porção de mesas temáticas aconteciam simultaneamente (para aumentar a agonia de todos), com a apresentação de diversos trabalhos sobre o tema.

Nos dois últimos anos fiquei sabendo de alguns eventos  sobre o tema, mas todos eram em locais distantes demais para que eu pudesse participar. Então, o entusiasmo desta vez era tremendo. Além de poder ouvir diversas visões sobre quadrinhos, teria a oportunidade de mostrar meu trabalho, algo que tenho plena convicção e que me move a querer saber cada vez mais sobre o tema.

Ok, pode parecer absurdamente nerd para grande maioria das pessoas, mas o que mais me fascina nas histórias em quadrinhos é sua absurda quantidade de possibilidade: em sua feitura, nas suas leituras, em sua pluralidade… Enfim, até onde sabemos não há fronteiras para os quadrinhos, ele é capaz de se renovar, se adaptar a qualquer tipo de narrativas… E, apesar de gostar muito de ler sobre o tema, estudar suas possibilidades, suas formas de linguagem e sua história, gosto de ler bons quadrinhos sem precisar pensar em teoria que o expliquem. Quadrinhos, acima de tudo emocionam, fazem pensar, como todo bom livro, filme ou música.

E o bacana de quem estuda quadrinhos é que, apesar de buscar teorias para explicá-los/interpretá-los é que  apesar da discussão acadêmica sobre o tema, há a paixão e a discussão “mais simples”. As conversas sobre o assunto podem variar, partindo da mesma pessoa, das teorias de semiótica e se Capitão América deveria ou não permanecer morto.

Apresentei meu trabalho no último horário de sexta-feira, na mesa de Jornalismo e HQ. Falei sobre as tirinhas de Ubaldo, o paranoico (pra quem não conhece, é esse personagem aí do lado, criado por Henfil na década de 70) e sua forma de jornalismo. Nos outros horários, tive a oportunidade de ver uma série de trabalhos muito interessantes dos mais diversos eixos temáticos, provando mais uma vez que as possibilidades são muitas.

Além disso, após as mesas temáticas todos os dias aconteciam palestras com pessoas que pesquisam o tema há muito tempo e são pioneiras no assunto. Todas as palestras valeram muito a pena, mas a que mais gostei foi a de abertura, que aconteceu na quarta-feira, com os verdadeiros pioneiros do estudo de quadrinhos no Brasil. Dois deles me emocionaram muito: Álvaro de Moya e Moacy Cirne. Os dois são autores de livros que me guiaram no início de meus estudos, quando estava bastante perdida sobre onde começar. Principalmente Cirne me influenciou bastante na forma de ler os quadrinhos de Henfil enquanto fazia minha pesquisa.

Álvaro de Moya foi um dos organizadores da 1ª exposições sobre histórias em quadrinhos do mundo, em 1951. Também organizou, em 1970, o livro Shazam!, ainda editado pela Editora Perspectiva, que tem uma série de artigos, abordando várias facetas dos quadrinhos: o humor, a psicanálise, o futurismo, a política, o erotismo… Nele também encontra-se o início de um estudo sobre as onomatopeias (figura de linguagem de quadrinhos por excelência).

Já os livros de Cirne da década de 70 estão todos esgotados e é um trabalhão de encontrá-los (mas, para quem se interesse pelo assunto, sugiro procurá-los na Estante Virtual, que reúne sebos de todo o Brasil). Entre seus títulos mais famosos estão Bum! A explosão criativa dos quadrinhos e Uma introdução política aos quadrinhos (o meu favorito). É triste ver que obras de referência sobre um tema que anda tão em voga ultimamente não tenham nenhuma edição em catálogo. Por mais que sejam obras um pouco datadas, é importante lê-las e compreender o contexto de produção de quadrinhos na época em que os livros foram concebidos,

Cirne tem uma abordagem bem diferente de Moya. Enquanto o segundo tenta validar os quadrinhos como uma forma de arte (a 9ª arte) e traça o histórico de sua produção (desde que ele foi popularizado no início do século passado nos Estados Unidos), Cirne tem uma visão mais política da coisa e aborda o caráter ideológico dos quadrinhos. Por isso a obra de Cirne me ajudaram tanto na leitura de Henfil…

Apesar desses estudos iniciais (totalmente inovadores, ainda mais se pensarmos na época que eles foram produzidos, quando o preconceito sobre o tema era gigantesco), fica a impressão que a produção de teorias sobre o tema não evoluiu muito desde então. Ok, se considerarmos os últimos 10 anos, talvez a produção tenha crescido mais um tanto, mas talvez ainda não seja o suficiente. Um dos trabalhos que vi, chamado O que querem os quadrinhos?, de Geisa Fernandes, falava justamente sobre isso. Ao estudarmos quadrinhos (qualquer um deles, seja de super heróis, autobiográficos…) buscamos estudos em outros gêneros (literatura, semiótica, cinema, sociologia, análise do discurso) para explicar os quadrinhos. E ela questiona, será que já não é hora dos quadrinhos (ou, mais especificamente, quem os estuda) criar a sua própria teoria? Eu não poderia concordar mais com ela. História em quadrinhos não é um subgênero! E merece mais atenção por sua riqueza, que não deveria limitar-se em buscar trechos de outros gêneros para conseguir se validar.

PS- Logo após as Jornadas Internacionais, fui a uma palestra do estudioso em literatura infantil Peter Hunt. Corrigindo: ele não é um estudioso, ele é O estudioso sobre o tema. Ao saber mais de sua história, a admiração pelo inglês cresceu ainda mais. Foi ele que, em uma universidade inglesa, abriu a 1ª cadeira que estudaria literatura infantil e que passou a tratá-la como um gênero (e não um sub gênero da literatura adulta, como algo menor e sem importância) e, a partir de então, criou uma teoria para a Literatura Infantil. Bom, não vou me alongar mais aqui falando sobre o Hunt (mesmo porque em breve você voltará a ouvir sobre ele aqui no blog), mas ver a palestra dele só me seu mais ânimo. De ver que é possível superar o preconceito dentro da academia de uma vez por todas.

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