O cobertor de Jane

Uma gracinha.

Quando você era pequeno, tinha algo de inseparavel? Lembro-me de ter um sapo gigante, de pernas tão longas que era impossivel carregá-lo, no alto de meus poucos centímetros, sem sair arrastando-o pela casa junto do meu queridissimo cão sniff. Não me recordo ao certo como foi que o sapo de longas pernas saiu de minha ainda tão pequena vida, mas, certamente minha mãe deve ter uma boa história para contar sobre esse dia.

E a Jane de Arthur Miller é mais uma dessas crianças que se apegam muito a um objeto e o carregam por boa parte de seus primeiros anos. Jane tem adoração por seu cobertor cor-de-rosa. A história é simples e cotidiana, sem fantasias, seres imaginários ou grandes feitos. Mas é adorável acompanhar o crescimento de Jane e o desaparecer de seu estimado cobertor.

Crianças crescem, nós sabemos disso. Mas, para elas, este ainda é um conceito em processo de assimilação, tudo é um aprendizado, e compreender que o cobertor que sempre a acolheu como um todo, agora pode apenas cobrir suas perninhas é um pouco complicado. As coisas têm vida útil. De uma forma bem delicada e em algumas passagens poética, o livro ensina para os pequenos que é preciso se despedir. Os brinquedos quebram, as roupas se perdem, os amiguinhos mudam de cidade. Tudo na vida completa seus pequenos ou grandes ciclos, e seu cobertor cumpriu muito bem o papel durante sua trajetória, mas, uma hora, é preciso deixa-lo ir, e esquentar outros pequeninos, como filhotinhos de passarinho em um ninho. O final realmente é o mais gracioso que poderia se esperar para a conclusão da história. E mais um ponto positivo para este livro, sim, ele tem fim. Não compreendo o que acontece com tantos livros infantis que não concluem suas histórias, simplesmente termina porque não existem mais páginas depois, simples assim detectar o final do livro (e não da história). Tudo bem que o exercicio imaginativo é ótimo, mas saber como se constroi uma narrativa também.

As ilustrações de Elisabeth Teixeira encaixaram-se muito bem no texto. Seu traço tem a graça e leveza da história. Soube cortar muito bem os instantes importantes da vida da pequena Jane aprendendo o que é crescer. Aquarela cai tão bem para livros de pequeninos, alias, quando uma boa aquarela não cai bem?  Elisabeth concorreu a melhor ilustração no jabuti do ano passado com o livro da ed Manati, O Lobo, e ficou com o segundo lugar. Para refrescar a memória desse jabuti, leia o post que fizemos na época (clique aqui).

Agora, o que mais chamou atenção neste livro não foi a tradução bem feita ou as novas ilustrações. A Cia das Letrinhas acertou tão em cheio que fiquei muito feliz. A edição é bilingue! Mas não bilingue nos tradicionais moldes de texto original a esquerda e traduzido a direita, não não! Você lê tranquilamente a edição brasileira e, logo após, encontra a exata edição original do livro, com a mesma capa e ilustrações da época. ADORÁVEL. Não significa que toda criança precisa ser bilingue, pelo amor. Para além do idioma, mostra às crianças noções de tempo e cultura.

Quer conhecer um pouco mais da Jane do notório dramaturgo Arthur Miller, clique aqui.

Aprender a dividir e se separar das coisas, não apenas crianças precisam aprender isso por aí. rs

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