O Estrangeiro

(ou: Quando Juliana lê um clássico)

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”


Escolhi o começo do livro para “ilustrar” este post por dois motivos: 1º porque ele é considerado um dos melhores inícios de romances num sem fim de listas (e de fato, eu o acho muito bom) e 2º porque acho que ele dá o tom certinho de todo o livro depois que você o lê.

Confesso que fiquei bem receosa de falar desse livro. Afinal, o quanto já se falou sobre ele por aí? Que é um clássico. Ou que trouxe à tona a teoria existencialista e mais um monte de frases feitas. Por isso, sempre tenho medo (e muito pé atrás) com aqueles livros que são considerados clássicos. Fico com vontade de ler, mas normalmente (como acontece com filmes, músicas e qualquer outra coisa) quando ouço muito que determinada coisa é genial, que vai mudar minha visão de mundo, ou o famoso “você precisa ler isso!”, normalmente minha expectativa é tão grande, que na maioria das vezes acaba em decepção e com caras reprovadoras quando eu solto minha famosa frase: “não acho tão bom assim…” (tipo meu caso com o Tarantino – mimimi, podem me crucificar…).

Fato é que peguei O Estrangeiro depois de uma saraivada de “como assim, você nunca leu?” depois que uma professora de francês recomendou à minha sala (nível intermediário que só lê adaptações – ODEIO aquelas adaptações…) a leitura do texto integral (detalhe: no nível seguinte, devo ler o Pequeno Nicolau, veja bem a discrepância). Claro, que fui atrás da versão em português, porque, né, não tava a fim de ficar anos lendo um livro de tão poucas páginas, ainda com a grande possibilidade de não entender quase nada.

Depois de tantas elucubrações sobre as dificuldades de se ler um livro quando todo mundo já falou dele, vamos ao texto em si. E voltamos ao começo, quando eu disse que esse 1º parágrafo é bastante representativo em relação à história. Acho que a partir dele, temos a apresentação perfeita do personagem principal e narrador, o Meursault. Aquele personagem que você não entende, odeia e tem vontade de dar um chacoalhão. Engraçado como ele me lembrou muito um outro personagem: o Rímini, de O Passado (Allan Pauls), pela passividade. Talvez a melhor palavra não seja passividade, mas ela se encaixa aos dois personagens. Eles são alheios a tudo. Parece que suas ações só acontecem pois há algo que os impulsiona (de formas nada sutis, diga-se). Não há iniciativa alguma, apenas respostas (e elas não são lá muito conscientes, parecem reflexos).

Engraçado que dois personagens de épocas tão distintas (Meursault é de 1942 e Rímini dos anos 2000) sejam tão parecidos. Mas é justamente isso que é o mais interessante no livro de Camus: a atualidade do seu personagem, das ideias do autor.  Essa descrença em tudo, um questionamento quase involuntário (causado por essa indiferença – questionamento aqui do tipo “pra quê fazer qualquer coisa, se vai dar tudo na mesma?”), esse niilismo mesmo, são muito atuais. Assustadoramente atuais.

Não vou ficar aqui falando muito sobre contextos ou filosofia, mas o fato é que Camus ajudou a divulgar o pensamento existencialista, que teve grande espaço no período entre guerras, quando a Europa estava naquela tensão absurda… Enfim… Não é difícil entender porque muitos pensavam dessa forma (ei! eu estou aqui super pasteurizando a ideia toda, mas isso é o suficiente para compreender o livro). É algo a se pensar e fazer um monte de paralelos e enlouquecer sobre como esse pensamento ainda se encaixa tão bem na nossa sociedade. Apesar dessa falta de iniciativa, é interessante notar como Meursault tem consciência de tudo. E como, ao longo da narrativa isso vai ficando mais claro para nós.

Dia desses, discutia com o Kalebe sobre o Jakob, do livro Jakob von Gunten (que ele acabou de resenhar aqui no blog). E falávamos justamente do caráter do personagem. Jakob é bastante diferente (pra não dizer o total oposto) do personagem criado por Camus. Mas, se pensarmos bem, os dois podem ser vistos como uma crítica da sociedade, como se um fosse a evolução do outro. Enquanto Robert Walser criou alguém bastante irônico com essa ideia de coletivismo e de viver em paz com a sociedade (como alguém que seja útil a ela), o personagem de Camus é o individualismo no seu mais alto grau.

Ok, acho que viajei demais (ou pirei, melhor dizendo) e fiz conexões no mínimo estranhas. Será que devo ler mais clássicos?

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