JOGOS VORAZES – Suzanne Collins

jogosvorazes1

nota5

 

 

 

O ninho agora parece uma concha vazia. as vespas desapareceram na perseguição aos outros. Não acho que retornarão, mas não quero arriscar. Desço da árvore e atinjo o chão já correndo na direção oposta. O veneno dos ferrões me deixa zonza, mas encontro o caminho de volta à minha pequena fonte e afundo quase inteiramente na água, como precaução caso alguma vespa ainda esteja me perseguindo. Depois de mais ou menos cinco minutos, arrasto-me até as rochas. As pessoas não exageraram nem um pouco os efeitos dos ferrões das teleguiadas. Pra falar a verdade, a ferroada em meu joelho é mais do tamanho de uma laranja do que o de uma ameixa. Um líquido verde e malcheiroso sai do local de onde retirei os ferrões.

O inchação. A dor. O líquido verde. Observar Glimmer se contorcer no chão até morrer. São muitas coisas para administrar em minha cabeça antes mesmo de o sol nascer no horizonte. Não quero imaginar como deve estar a aparência de Glimmer a uma hora dessas. O corpo desfigurado. Os dedos inchados segurando obstinadamente o arco…

O arco! Em algum canto de minha mente embaralhada um pensamento se conecta ao outro e levanto-me, tateando em meio as árvores até Glimmer. O arco. As flechas. Preciso pegá-los. Ainda não ouvi os tiros dos canhões, o que quer dizer talvez que Glimmer esteja ema algum tipo de coma, seu coração ainda deve estar lutando contra o veneno das vespas. Mas assim que parar e o canhão sinalizar sua morte, um aerodeslizador vai aparecer para recolher seu corpo e levar o único arco e flecha que vi nos Jogos até agora. E me recuso a deixar que ele escape novamente.

Alcanço Glimmer no exato instante em que o canhão dá o tiro. As teleguiadas desapareceram. essa garota tão extraordinariamente bela em seu vestido dourado na noite das entrevistas, está irreconhecível. Suas feições erradicadas, seus membros estão três vezes maiores do que o tamanho normal. Os calombos de ferrões começam a explodir, expelindo o líquido pútrido para todos os lados. Tenho de quebrar com uma pedra vários do que antes foram seus dedos para soltar o arco. (…)

pág 207-208

Eis que estou numa fase um pouco mais light e resolvo me aventura por um livro juvenil para curtir uma fantasia um pouco mais imaginativa e eis que mu surpreendo com a seguinte constatação no primeiro capítulo do livro: Jogos Vorazes não é um livro para crianças, ou pelo menos não abaixo de 16 anos pois o nível da violência descrita por Suzanne Collins descreve e a situação limite que sua personagem vive, é no mínimo perturbador. resultado desta experiência é que na procura por um Hugo Cabret encontrei um 1984,  ou seja: O livro é ótimo.

A situação limite é presença constante da fome, pobreza e subvida que Katniss a narradora vive, tendo ainda que suportar a família constituída por uma irmã pequena e uma mãe ingênua, muito parecida com a personagem de Ree em Inverno da Alma, Katniss é a responsável por colocar comida na mesa e por salvar a irmã dentro do contexto da trama. A violência descrita chega a assassinar nas páginas do livro uma criança de 12 anos com uma lança. Com exceção de uma diminuição de ritmo proposital em seu final o livro tem um tom pesado o tempo inteiro onde se não há a violência da fome (algo que eu sempre acho forte), há violência psicológica da situação em que ela vive, a violência da mídia em cima da competição e a própria violência dos Jogos que consegue ainda se sobrepor dentro da trama. Mas o que diabo são os tais Jogos?

Antes de chegar nisso veja um panorama do que é o futuro segundo Suzanne Collins: Após um grande guerra a América do Norte se desintegrou em 13 distritos totalmente destruídos pelas máquinas, criações biológicas e guerra química que consumiu quase todos os recursos. Se não bastasse isso os 13 distritos começaram a brigar entre si em uma guerra civil que culmina com a destruição completa o distrito 13 e ascensão da Capital que vai controlar todos os outros mantendo os sob rígidos regras de um sistema autoritário que nada deve ao Grande Irmão ou ao mundo de alfas de Huxley. Um dos mecanismos de submissão da população é também o grande espetáculo de entretenimento: Os Jogos Vorazes, uma competição em que adolescentes de 12 a 18 anos (2 por distritos) lutam até a morte em uma arena natural, só um sobrevive e pode trazer um pouco glória ao seu distrito. Não só são obrigatoriamente “sorteados” jovens de cada distrito para competir, como eles tem que competir entre si mesmo. Simbolicamente faz muito sentido:

Levar as crianças de nossos distritos, forcá-las a se matar umas às outras enquanto todos assistimos pela televisão. Essa é a maneira encontrada pela Capital de nos lembrar de que estamos totalmente subjugados a ela. De como teríamos pouquíssimas chances de sobrevivência caso organizássemos uma nova rebelião. Pouco Importam as palavras que utilizam. A mensagem é bem clara: “Vejam como levamos suas crianças e as sacrificamos,e não há nada que vocês possam fazer a respeito. Se erguerem um dedo, nós destruiremos todos vocês da mesma maneira.”  pág 25

Podem imaginar mais aterrorizante (e brilhante) que esta forma de controle? Eu fiquei realmente surpreendido pela história de fundo e como ela consegue ser crítica a sociedade guiada pela mídia. E Katniss entra nessa competição pois sua irmã de doze anos é “sorteada” e ela se oferece para ir no lugar, o outro tributo do distrito é um menino que salvou a vida dela no passado e que secretamente a ama. Azar? Muito. Isso vai ser o grande drama da personagem que tem que sobreviver ao Jogos e não se afeiçoar ao menino, Peeta, pois ele também é um inimigo em potencial. Mas se fosse só isso seria fácil, há outras pessoas na arena que vão questionar, a nós leitores, os limites de aceitação dessa competição.

Katniss é uma personagem de fala dura, não gosta de animais e tem uma visão muito lógica da vida. Ela tem uma profundidade fascinante assim como a maioria dos coadjuvantes, o que já posso adiantar que Suzanne consegue criar personagens bem tridimensionais e quando a narração, que se delicia em cada detalhe das provações, não está lá lembrando o que são os jogos, os personagens conseguem criar uma identificação com o leitor.

A trama é muito bem resolvida em seu final, e só ficaria a crítica para com a relação do relacionamento desenvolvido por Peeta e Katniss durante o jogo estar bem perto daquele ideal de relacionamento virginal americano. Matar criancinhas com lanças é aceitável mas algo que perigue além do beijo não é permitido. Mas aí… é que eu lembrei que esse é efetivamente um romance juvenil. Então isso não é uma falha e sim esperado. Ser colocado na ilustre companhia de Orwell e Huxley, pode parecer um exagero mas o mundo de Collins dialoga diretamente com essas obras e estar perto é o que torna essa leitura fascinante e imagino que para o público juvenil obrigatória, ainda que haja o adendo de que um livro bem forte para certas idades, creio que já está no panteão das grandes obras juvenis desse século. Vale a leitura.

Adendo 1 – Essa primeira parte de uma trilogia, se os outros dois manterem o mesmo nível e expandirem para outros países fora da América do Norte pode ser muito interessante, mas aí eu vou ler Em Chamas e Mockingjay (ainda sem data de lançamento no Brasil) e os informo. Mas tem tudo para ser um grande trilogia.

Adendo 2 – O sucesso lá fora foi tão grande que já estão sendo produzidos os filmes da trilogia, e ironicamente o primeiro teaser de Jogos Vorazes saiu hoje:

3 comentários em “JOGOS VORAZES – Suzanne Collins

  1. Este livro é um grande plágio de Battle Royale (Batoru Rowaiaru), livro japonês que deu origem a um filme com certa fama no mundo. A única diferença entre as obras é que a versão americana inclue um aguado casal de adolescentes.

  2. Para quem quiser saber mais Battle Royale é um livro de 1999, lançado em inglês em 2003 pela VIZ
    http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_Royale

    Gerou dois filmes e um mangá que está sendo publicado pela Conrad por aqui, numa das maiores novelas editoriais. Isso por que Battle era publicado com regularidade até meados de 2007, quando desapareceu e só foi voltar em julho desse ano com os últimos três exemplares (o último ainda não apareceu, mas o 13 e o 14 já são encontráveis). A história é bem similar pelo resumo, vide que não li o original.

    Entretanto, pessoalmente, prefiro pensar em influências antes do plágio. A história de lutar até a morte como parte de um programa de entretenimento eu já tinha visto num filme do Schwarzenegger de 1987: O Sobrevivente. Assim como colares que explodem detendo prisioneiros em Aliança Mortal com Rutger Hauer.

    Um abraço,

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