Semana Neil Gaiman: Lugar nenhum

Por: Cabral

“Ah, então. Gaiman, né? Vamos ver se é tudo isso…”

Após firmar-se como sucesso cult no meio de quadrinhos com o espetacular Sandman, vem então o primeiro romance do cara, relançado agora pela editora Conrad. Gaiman é um autor que sempre causa muita expectativa nos que conhecem e apreciam sua obra. E será que seu primeiro romance cumpre a demanda?

Até cumpre… embora não seja tão magnífico quanto se imagina. Lugar Nenhum é um romance legal de se ler, ainda que tenha algumas partes um tanto quanto truncadas, por assim dizer, em que a estória parece brecar, como se fosse um rio suave que esbarrasse em algumas pedras. Mas nada que comprometa.

A narrativa começa introduzindo Richard Mayhew, o protagonista normal que possui uma vida normal, um emprego normal e uma namorada normal… mais do que obcecada em manter e alcançar sucesso em sua vidinha normal. Mas aí aparece uma menina ferida, suja e inconsicente numa rua qualquer, a qual Mayhew não consegue ignorar, apesar dos apelos de sua noiva. E aí sua vida vira do avesso.

Ao entrar em contato com seres que não pertencem a Londres que Richard sempre conheceu, ele passa não mais existir para as pessoas com quem sempre conviveu; tornou-se um pária em sua própria realidade, e passa a pertencer ao outro mundo que nunca antes imaginara existir: a outra Londres, a Londres de Baixo, o mundo subterrâneo em que se arrastam seres maltrapilhos e imundos, alguns assustadores, outros um tanto quanto patéticos, como se fossem fadas do lixo, com uma cultura toda própria, permeada por acordos não-verbais, trocas de porcarias e honras decadentes. E Mayhew se vê como um estranho no mundo no qual agora pertence – tal como já se sentia alienígena em seu próprio mundo de origem, embora jamais o admitisse.

Lugar Nenhum transporta o leitor a uma trama de fuga e perseguição, em que o protagonista mais parece mera peça de decoração, um coadjovante: todos são melhores do que ele, todos sabem mais do que ele, todos são mais fortes do que ele, todos são mais espertos do que ele, todos são mais corajosos do que ele.

Outro ponto negativo são os dois antagonistas que perseguem o grupo de Richard: possuem força demais e carisma de menos. Ou melhor, carisma nenhum.

De certa forma, a falta de carisma é um problema para a maioria dos personagens, apesar de o mundo feito de lixo por Gaiman ser bastante interessante, vivo e rico em detalhes.

Apesar de alguns probleminhas aqui e ali, Lugar Nenhum é um romance bem legal de se ler, bem ao estilo Gaiman… Mas perde para romances posteriores, tal como o excelente Deuses Americanos e o cativante Coraline.

Lugar Nenhum
Autro: Neil Gaiman
Editora Conrad
336 pgs

Fábio Cabral
Criatura que se alimenta principalmente de RPG, videogames, quadrinhos, literaturas e músicas góticas deprimentes. Acha que tem poucas tatuagens. Já foi (ou é, ou voltará a ser) ator, dublador, torcedor fanático do Flamengo e cantor em banda de heavy metal; porém, seu verdadeiro – e pretensioso e ridículo – sonho é mesmo ser escritor.

Um comentário em “Semana Neil Gaiman: Lugar nenhum

  1. Acho que justamente a falta de “carisma” é a ideia ..pra mim eles são bestas,monstros e não vilões…o final foi o melhor…adorei..da pra refletir muito.Já deuses americanos cheguei ao ponto de deixar o livro por uma semana de lado…bom …nada demais!

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