Semana Neil Gaiman: Coraline – Neil Gaiman

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-Eu não vou fugir – Disse Coraline – Ela tem meus pais. Eu voltei para recuperá-los.
– Ah, mas ela manterá aqui enquanto seus dias forem se transformando em poeira, as folhas forem caindo e os anos se passando um após o outro, como o tique-taque de um relógio.
– Não disse Coraline – Ela não vai.
Houve um silêncio no espaço atrás do espelho.
-Se por acaso – disse uma voz no escuro –, você conseguir salvar seu papai e sua mamãe da bela dama, poderia também libertar nossas almas.
– Elas as roubou? – perguntou Coraline chocada.
– É claro. E as escondeu.
– Por isso não pudemos ir embora aqui quando morremos. Elas no prendeu e se alimentou de nós, até que nada sobrou  de nós agora, somente peles de cobra e casulos de aranha. Ache nossos corações jovem senhorita.
– E o que acontecerá a vocês se não achar? – Perguntou Coraline.
As vozes não disseram nada.
– E o que ela fará comigo? – perguntou.
As figuras pálidas pulsaram fragilmente; Coraline podia imaginar que elas eram apenas pós-imagens, como o reflexo que permanece em nossos olhos depois que uma luz brilhante se apaga.
-Não dói – sussurrou uma voz apagada”
pág 84
Muitas mães e pais tem receio de deixar seu filho(a) assistir a filmes de terror, ou qualquer coisa do gênero. O medo do desconhecido que corrói a mente de uma criança é realmente poderoso, talvez seja ainda um medo primordial que agora nos escapa. Me lembro especificamente de que tinha muito medo do Freddy Kruger quando era criança. Nunca havia visto um filme do maldito mas sabia que ele entrava nos sonhos para matar suas vítimas, normalmente jovens. Havia noites e de morava a pregar o olho esperando aquele homem meio queimado aparecer para me esfaquear: Hoje eu acho ele uma comédia de qualidade.
Talvez seja o horror de ver a violência estampada no dia-a-dia que nos tira o apetite por essas criaturas que tanto nos amedrontavam quando crianças. Contudo você queria ver o Freddy naquela época pois queríamos ficar com medo, em casos mais raros (normalmente relacionados com o Exorcista) as pessoas refutaram para sempre a experiência do medo e aderiram aos romances água-com-açúcar das novelas nacionais, mas no geral ainda vamos ao cinema com a esperança de levar no mínimo um susto convincente. As gerações passam e não mudam tanto, talvez por ter cada vez mais acesso a realidade do mundo pelos telejornais, e a banalização de algumas figuras do folclore do horror (pensem nos vampiros só para começar) atualmente há um amadurecimento mais rápido a essa ignorância que a infância nos permitia, mas ainda há a procura vide que Goosembumps é a série mais popular entre os meninos de 9 a 12, mas trabalhando nessa área infantil até a pouco, era curioso notar o que acontecia com o pessoal que pulava de um Goosembumps para Coraline. O poder que a história fornece ainda consegue colocar até mesmo nós dentro desse medo primitivo que todos procura.

Coraline pode ser visto como uma reimaginação de Alice, um pouco mais fincada no terror que no absurdo. Uma comparação genérica seria dizer que Coraline é a tela expressionista do quadro surrealista de Lewis Carrol. Coraline é uma menina imaginativa que se muda para uma casa nova com seus pais, exploradora e alegre, ela descobre uma portinha lacrada em sua sala, essa porta leva-a a um lugar muito parecido com sua casa, na verdade uma outra realidade de sua casa em que há uma “outra” mãe e um “outro” pai. Essa realidade parece muito interessante no começo, contudo os seus “outros” pais sugerem que ela fique lá para sempre e para fazer isso, basta substituir seus olhos por botões, assim como eles. Neil Gaiman se popularizou por usufruir de elementos de lendas, mitologias e contos de fadas dentro do mundo moderno, apesar de não dizer explicitamente a proposta da outra mãe está ligada com a lenda de que os olhos são a morada da alma. Seria como fazer um pacto com o diabo a la Riobaldo ou Fausto.
Se Coraline consegue fugir para o mundo real, ela acaba tendo que voltar ao “outro mundo” pois seus pais foram raptados durante sua ausência, e aí que a história começa: A busca de Coraline por seus pais  pela alma de três crianças fantasmas que foram devoradas pela criatura que se intitula como outra mãe, auxiliada por um gato falante. O livro que é escrito de maneira muito concisa, traz elementos presentes na vida de todo o adolescente como o tédio do cotidiano, a vontade de conhecer outros mundos  imaginários e até, muito sutilmente, a vontade de sumir da vista dos pais e vira do avesso ao coloca a menina lutando por sua vida dentro de situações cada vez mais grotescas e tenebrosas, como um monstro gigante ou uma mão amputada sobrevivente. O que faz a história ser mais expressionista é a qualidade da descrição de Gaiman nas tarefas assombrosas que a heroína tem que fazer, e como é um ritmo crescente e o perigo de mortalidade é iminente, o terror da leitura existe ao longo de suas 160 páginas até se transformar em uma fábula moral sobre a própria superação do medo.
Eu indicava para todas as crianças por ser uma história fantástica e original, e esse medo que pode surgir na leitura (pois dependendo da idade pode ser impressionante) a resolução e essa mensagem moral era sempre apreciada pelos jovens leitores. Para os adultos é muito interessante ver o caldeirão de referências e desdobramento que a história traz. Para os leitores de idade mais avançada, é impossível não resgatar a infância lendo as aventuras de Alice no país das maravilhas e através do espelho. Ou seja um livro para todas idades.
O FILME
Também devemos fazer um adendo a maravilhosa realização do Filme de Coraline. Talvez eu exagere ao dizer perfeito, mas não podia se esperar menos da união da história de Neil com a complexidade visual de Henry Sellick (o diretor de Estranho Mundo de Jack), somado ao fato de que não houve acovardamento em se minimizar o tom do original, o que rende no filme uma das sequências de abertura mais sinistras da histórias do cinema em que uma mão metálica vai bordando uma pequena bonequinha de Coraline.
Há muitas diferenças com a história original, colocando mais profundidade nos personagens secundários do pai, da mãe e até um novo menino que inferniza a vida da protagonista e um ritmo bem mais lento de desenvolvimento, enquanto o original de Gaiman a ação já começa nas primeiras 30 páginas do livro, toda a ação do filme são centradas nos 30 minutos finais. A mudança de mídia sempre traz alterações na história, o romance tem um teor mais fabulístico então há necessidade de desenvolver um universo com muitos protagonistas além do essencial, pois o centro da trama é a protagonista e sua antagonista. Em um filme porém normalmente é necessário desenvolver todos os personagens e um ritmo menos acelerado funciona para construir a tensão necessária para um suspense/terror. Então podemos notar que há mudanças na história e no ritmo em que ela segue, mas a essência é a mesma. Tanto que o roteiro também é assinado por nosso querido autor, juntamente com o Henry Sellick.
Por falar nele. Toda a concepção estética do filme é de uma imaginação tão fértil como a Dave McKean, que oscila entre o sonho e o pesadelo, ora com o colorido que invade a tela nos momentos de mágica, quanto nos momentos tenebrosos, até mesmo esbarrando no grotescos de um estética pútrida ou do nada. O filme é deleite visual que ´fruto da mente desse diretor de animação que trouxe da mente de Tim Burton outro clássico  indubitável.

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Ou seja, leia o livro e Veja o filme. Depois escolha mas não surpreenda se não conseguir escolher.

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