Três vivas para as Editoras brasileiras.

Hoje é um post de muita felicidade. 
Felicidade elevada ao cubo. 
Mal posso acreditar que os fatos superaram toda e qualquer espectativa a curto prazo que eu poderia ter.
Em setembro do ano passado postei sobre um livro MUITO BOM. E por não ter tradução para o português, foi digno de um “hello, editoras”, porque era realmente triste uma obra assim não estar ao alcance de toda e qualquer criança que tem como principal ou único idioma, o português. Tratava-se de Time to get out of bath, Shirley, de John Burningham. Não lembra ou não leu? Tudo bem, foi  esse aqui.
Mas, surpresas, as vezes, vêm a cavalo em um frenético galope que não apenas sou surpreendida com a edição desta obra pela editora Cosac & Naify, como sua feliz companhia, o Fique longe da água, Shirley, consequentemente, também de John Burningham pela Cosac. A editora foi muito fiel ao projeto gráfico original. Mesmo tamanho, encadernação, papel, e sem a tradicional capa dura da Cosac. Isso é bom, porque o preço veio razoavel (trinta reais). 
Como Hora de sair da banheira, Shirley já foi por mim comentado, não me farei reduntante. Deixo para o post de hoje o também impressionante Fique longe da água, Shirley. Como um bom antecessor da versão banheira, Shirley é uma menina de imaginação para mares abertos. É uma criança que pouco precisa para conhecer os lugares mais distantes e as figuras mais exóticas. Diante de uma grande praia em um dia frio sem banho de mar, o que restaria a ela? Conhecer piratas e caçar tesouros, lógico! Já seus pais, que a levaram para a praia, embora presentes, não se fazem como tal. A mãe em seus comentários desconexos e o pai em um momento “Preciso de descanso, deixem-me em paz”. Não existe união ou um diálogo entre eles, cada um está dedicado a um universo diferente de desejos.  E o contraste cromático reforça essa idéia da vivacidade de suas histórias com a palidez da vida comum e sem imaginação dos pais. Seria isso uma indireta? Fica a dica. Inclusive, muito me lembrou um outro livro sadicamente irônico, que mais tem de ensinamento para os pais que para as crianças, o Agora não, Bernardo. Esse é assustador, recomendo sua leitura.
Um show a parte, que pode passar desapercebido, é a ilustração de página dupla que antecede o texto.  Em um antigo mapa de piratas, todas as aventuras estão presentes. Mas não apenas isso, seus pais lá estão também. Achei de tão singela ironia essa imagem. A menina envolvida em um universo distante tem os pais como figura mais representativa do que a relação inversa. Um resumo muito bom de tudo o que você encontrará ao longo da história. Afinal, a melhor parte de um crème brule é quebrar a casquinha. Rs.
 Mas a surpresa quis brincar de redundância comigo, e fui surpreendida por outra tradução, dessa vez pela editora Pallas. O O Livro negro das cores é um marco para trabalhar com inclusão e necessidades especiais. Conheci este tantas vezes premiado livro faz uns 2 anos, e nunca entendi porque nenhuma editora havia se interessado em trazê-lo. Badabim badabum, trouxeram. No mesmo papel, capa dura, reserva de verniz e texto em Braille. O livro é LINDO, traz para o universo da criança que enxerga um belo modo de ver o mundo de outra forma, privada da visão, das cores. Muito delicado, o texto explica as tantas coisas que vemos e que não damos a devida importância, ou ao menos não percebemos os vários outros sentidos que podem ser aguçados em cada uma delas. De páginas negras com texto em branco de um lado e em Braille do outro, as ilustrações são formadas com uma camada generosa de reserva de verniz transparente sobre papel preto, que proporciona um perceptivel relevo e dificulta enxerga-las da forma traicional, te convidando a ve-las pelo tato.
Para as criancas que conseguem ver o mundo das cores, uma nova experiencia sensorial e de estimulo ao respeito. Para as crianças que precisam de outras formas de experimentar o mundo, um livro para sentirem-se em casa. Ótimo.
Aiai, hoje posso dormir mais tranquila. Estamos no caminho certo.
Fique longe da água, Shirley!
(Come away from the water, Shirley!)
John Burningham
1977
Ed. Cosac Naify
Hora de sair da banheira, Shirley!
(time to get out of bath, Shirley!)
John Burningham
1978
Ed. Cosac Naify

O livro negro das cores

(the black book of colors)
Rosana Faria, Menena Cottin
2005
Ed. Pallas

2 comentários em “Três vivas para as Editoras brasileiras.

  1. Você tem os meus parabéns! Acho que é este, um dos principais focos que um blog literário deve ter… Não bastam só parcerias, resenhas, promoções… temos que dar um “hello” as editoras, e claro, estimular a produção de livros nacionais.

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