Estrada, A – Cormac McCarthy

nota5
a-estrada “Ele começou a descer os degraus toscos de madeira. Enfiou a cabeça ali e acendeu o isqueiro e varreu a escuridão com a chama como se fosse uma oferenda. Frio e umidade. Um fedor terrível. O menino agarrado a seu casaco. Ele podia ver parte de uma parede de pedra. Chão de argila. Um velho colchão manchado de escuro. Ele se agachou e desceu mais um pouco e segurou a luz estendida. Amontoadas junto à parede estavam pessoas nuas, homens e mulheres, todos tentando se esconder, ocultando o rosto com as mãos. No chão estava deitado um homem cuja as pernas estavam faltando até a altura dos quadris e os cotos escuros e queimados. O cheiro era hediondo.
Jesus, ele sussurrou.
Então um a um eles se viraram e piscaram os olhos na luz fraca. Ajude-nos, eles sussurraram. Por favor ajude-nos.
Cristo, ele disse. Oh Cristo.
Ele se virou e agarrou o menino. Rápido, ele disse. Rápido.
Tinha deixado cair o isqueiro. Não havia tempo para procurar. Empurrou o menino escada acima. Ajude-nos, eles gritaram
Rápido.
Um rosto barbado apareceu piscando os olhos ao pé da escada. Por favor, ele disse. Por favor.
Rápido. Pelo amor de Deus rápido.
Ele empurrou o menino pelo alçapão e ele caiu estatelado. Levantou-se e segurou a porta e deixou que ela batesse e se virou para segurar o menino mas o menino tinha se levantado e estava sua pequena dança de terror. Pelo amor de Deus venha, ele sibilou. Mas o menino estava apontando pela janela e quando olhou ficou gelado. Através do campo na direção da casa vinham quatro homens e duas mulheres. Ele agarrou o menino pela mão. Cristo, ele disse. Corra. Corra”
Estava eu arrumando alguns livros em minha casa e logicamente comecei a ter momentos nostalgia ao ver um exemplar a algum tempo esquecido. Então estava eu com muitas ideias para ressuscitar alguns de meus mais queridos romances e creio que na próxima semana farei isso, entretanto resolvi fazer a crítica de um romance que para mim é um dos melhores do novo milênio, nunca esteve esquecido em minha estante mas creio que nunca teve o reconhecimento que deveria em nossa terrinha. O fato pode ser sua trama que se confunde com gêneros e transcende todos eles. Fazendo um paralelo louco, posso dizer, que ele se completa muito bem com meus últimos posts nesse portal, já que falei de zumbis e Ficção científica nos últimos dias. Talvez isso explique a falta de apelo no nosso mercado editorial, mas posso garantir que, bizarrices à parte, essa é uma das viagens mais angustiantes que a literatura já proporcionou. Senhoras e senhores bem-vindos A Estrada. 

Logo no início somos jogados nesse mundo dominado por cinzas e poeira, e dois personagens conduzindo um carrinho de supermercado por uma estrada interminável. Eles são pai e filho, e tal qual o Ensaio sobre a cegueira, esse é um romance com personagens sem nome e nessa terra inóspita. Os únicos seres humanos que eles encontram ainda no começo do livro tentam matá-los, são um grupo de homens que queriam comer a carne dos protagonistas, tal como os zumbis e o pai é forçado a matar um dos integrantes do bando. A partir daí temos a premissa básica do romance quando o filho passa a temer o pai pelas barbaridades que ele faz para mantê-los vivos, e o pai teme pela vida do filho e vai se lembrando de como a mulher o abandonou e dos últimos dias da mundo tal como nós o conhecemos. Ao ler o romance tive a sensação de uma outra obra com premissa similar: O Sacrifício de Andrei Tarkovsky. O que aconteceria se o fim do mundo realmente acontecesse? E o que aconteceria com aqueles que continuassem após o fim. Se no filme do cineasta russo a visão era existencial, no romance do McCarthy é uma existência dolorosa, em que tentar manter a humanidade é uma tarefa árdua onde ela não existe mais. Nada de heróis como Will Smith ou Denzel Washington em blockbuster recentes, a jornada pela estrada está cheia de sombras do que há de mais soturno em nossa raça.
Estruturalmente o romance é uma obra clássica de McCarthy, diálogo rápidos sem pontuação específica, uma série de acontecimentos interligados em uma narrativa ágil e violenta. Mas ao contrário de algumas outras mais clássicas, a tensão psicológica no romance é crescente. O grande drama do pai é conservar a inocência do filho, que só conhece esta terra de cinzas. Não existem mais pessoas na terra e eles não se falam muito (pois não há nada a ser dito), seus pensamentos e dramas são toda a estrutura da narrativa que pela perspectiva do filho, só pensa em como o pai está se transformando em uma pessoa ruim. Aliado a isso há o terceiro personagem do romance, companheiro constante de todos que habitam esse universo: a Fome.
Como não há mais comida e nem mais animais, os personagens passam fome desde a primeira página até o derradeiro e triste final. Associei os personagens coadjuvantes a zumbis, o que não é mentira pois todas essa estrutura de fim do mundo remete também aos comedores de carne, mas em prol de fazer uma associação mais exata, as pessoas de A Estrada se tornaram canibais, os grupos maiores comem os menores e por aí a humanidade vai se auto-extinguindo. Melhor que muita história de zumbi, mais aterrorizante por ser extremamente possível.
Como manter a humanidade? É a frase principal do livro. Poderíamos pensar que é uma aventura mas a aprosa de McCarthy que já começa intensa e brutal, vai caminhando em uma direção mais sombria e triste. Uma dor lenta que vai consumindo os protagonistas. Seu final é triste mas interpretativo, os niilistas veem como um apelo a última ingenuidade, os otimistas ainda enxergam uma centelha de esperança naqueles que “carregam a luz”. Poderia dizer que é um livro Maravilhoso, mas não sei se essa é a melhor palavra para descrevê-lo. Aterrorizante seria mais preciso, mas não dá conta da beleza intrínseca da história. Único é clichê, contudo é o que ele é. Não é um drama puro. Não é uma FC. Assusta em certos pontos, tem uma pegada existencialista e filosófica em suas entrelinhas. Fato é que é um dos melhores romances já escritos. Uma experiência que se você chegar até o final vai achar nosso mundo muito mais colorido.
P.S. Curiosidade: A Estrada virou um filme muito bom com Viggo Mortensen, que passou totalmente desapercebido em Janeiro deste ano. é uma ótima adaptação, que só não consegue transmitir a tensão psicológica dos personagens mas nesse ponto a prosa supera a imagem, não há muito o que se fazer. Mas esse é um dos raros casos de leia livro e veja o filme.

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