JABUTI 2010 – TEORIA E CRÍTICA LITERÁRIA

jabutizinho Em 2009 a grande publicação dentro da área de Teoria foi A Cultura do Romance, mas como é uma tradução já não pode concorrer, então quando a lista do Jabuti saiu ao contrário das outras que já tinham um ou dois favoritos, os escolhidos para melhor crítica estavam niveladíssimos. Dentre eles podiamos dividir os estudos de críticos renomados que visitavam suas áreas ou tinham seus escritos compilados: Clave do poético, Controle do Imaginário, Cinzas do Espólio, Quadrado Amarelo, Para Ler Finnegans Wake. Três estudos bem originais (Vingança de Hiléia, que constrói uma ponte entre Euclides da Cunha e Amazônia; Juó Banánere, sobre um dos autores mais engraçados do começo do século XX, totalmente esquecido nos dias atuais e Murilo Mendes e Ismael Nery, que apesar de não ser um assunto novo, não se tinha nada de peso escrito a respeito). Os outros dois livros eram novas perspectivas sobre temas já cotidianos: Armadilhas do saber, analisa a literatura com a velha conhecida psicanálise, e Para a História do Português Brasileiro, faz exatamente o que título induz a pensar. Apesar de não discordar do vencedor, parte minha queria ver ou a pesquisa sobre Murilo Mendes ou sobre Juó Banánere, entre os três escolhidos.

clave do poetico Clave do Poético – Benedito Nunes. É a escolha mais lógica com certeza. Benedito é um crítico influente tanto nas áreas de literatura,  como nas de filosofia e crítica de Arte. Possui livros significativos como Oswald Canibal  e Drama da Linguagem, este último uma pequena jóia que faz uma ponte entre Clarice Lispector (autora a qual Benedito tem uma admiração confessa, assim como muitos de nós) e a filosofia. Alias, essa é a contribuição mais óbvia que Benedito traz a crítica moderna,  sua obra anterior O Dorso do Tigre (2009), já tratava da linha estreita em que a filosofia tem com a literatura, mas era muito mais hermética em termos estruturais, e posso dizer que todos seus livros tem essa característica temática. Contudo a grande diferença entre O Clave do Poético é que é uma porta de entrada muito mais ampla a obra do crítico do que os anteriores.
Ninguém que estude Teoria literária entra no pensamento de Antônio Candido diretamente pelo Formação da Literatura Brasileira, ou se lê Vários Escritos ou Introdução Analítica do Poema para comear a conhecer Candinho, assim como o Mímesis do Auerbach pode traumatizar, também é preferível começar pelo Figura ou, pelo recente, Ensaios de Literatura Ocidental. Todo o escritores na área de Humanas tem uma porta de entrada mais acessível e era isso o que estava faltando para Benedito. Função que Clave do Poético cumpre muito bem, mas não fica só nisso, há alguns ensaios que já podem ser receitados como obrigatórios para muitos estudantes de Letras.
O segundo Ensaio (Crítica no Brasil, ontem e hoje) é um ótimo apanhado sobre as várias correntes de análise que o Brasil teve e tem, ele é crítico em relação a elas demonstrando tanto suas vantagens como as desvantagens de cada corrente crítica. Muito Bom. Assim como o ensaio “Volta do mito na ficção Brasileira contemporânea” é um olhar ousado que abrange desde Raduan até Hatoum, a entrevista com Clarice, que só aumenta a bibliografia de textos indispensáveis sobre nossa maior escritora e ‘Meu caminho como crítico” texto que abre o volume é um belo e nostálgico percurso de sua vida como crítico. Característica interessante do livro é intercalar um biografismo sutil com essas reflexões, o que torna o texto muito fácil e prazeroso de ler, essa é uma característica que tornou Antônio Candido uma lenda entre a crítica brasileira: Sua acessibilidade.
controle-do-imaginario Controle do Imaginário e a Afirmação do Romance – Luiz Costa Lima. Vou confessar uma coisa: Não sou muito fã da escrita de Luiz Costa Lima, muitas voltas, citações e viagens. A existência desse livro me lembra muito um outro chamado Ascenção do Romance, de Ian Watt, que eu acho mais preciso em sua forma de exemplificação. Mas isso é muito mais uma questão de gosto, Luiz é um dos mais prolíficos críticos atuais e devo tirar o chapéu no fato de ser um dos poucos que olha para fora do Brasil, assim como em Redemunho de Horror o palco é fora de terras nacionais e o sentido a ser apreendido se pretende universal.
Dividido em duas partes o livro primeira traça um panorama filosófico-histórico da sociedade emergente da Idade média até o século XVII e as tentativas de controlar o imaginário popular, meio que fazendo uma pesquisa diacrônica sobre a origem da ficção que vai culminar no surgimento da forma que irá controlar a ferro e fogo a imaginação popular: o romance. Na segunda parte ele vai discorrer sobre os livros básicos que moldaram o romance como ele é hoje: Dom Quixote, Moll Flanders (????), Relações Perigosas e Tristan Shandy. Mas ao contrário da coletânea de Benedito Nunes, Luiz Costa é bem mais difícil de se ler.
cinzas-do-espolio Cinzas do Espólio – Ivan Junqueira. Já que é para ressaltar os livros como portas de entrada, esse exemplar também é uma coletânea dos escritos críticos de Ivan Junqueira, devo destacar o escrito sobre Otto Maria Carpeaux, mas a seleção é bem mais restrita em temas do que os outros dois livros. Não me encantou tanto quanto o Clave do Poético, mas é um bom apanhado crítico do grande tradutor de Flores do Mal e T.S.Elliot. De resto destaco ainda uma outra coleção de críticas, O Quadrado Amarelo, em bela edição da Imprensa Oficial tem vários escritos de Alberto Costa e Silva, que é somente uma das grandes autoridades em História da África. Ele andava meio sumido das letras nacionais e retorna aqui falando de literatura, poesia, artes plásticas e outros assuntos. A prosa de Alberto é bem gostosa de se ler e torna tudo interessante, o que é muito fácil para um cara que se tornou conhecido com a Manilha e o Limbambo (1000 páginas). Juó Banánere foi a grande surpresa, o título se refere ao pseudônimo adotado por Alexandre Marcondes Machado, poeta paulistano que criou esse quase-heterônimo para satirizar a elite paulista e os descendentes de italianos, cultura pela qual era apaixonado apesar de não ser descendente. A lembrança do humor escrachado de Alexandre e seu personagem/autor cômico pode render outros estudos e uma retomada desse autor quase esquecido.
Murilo Mendes & Ismael Nery – Reflexos, de  Leila Maria Fonseca Barbosa e Marisa Timponi Pereira Rodrigues, é um bom livro que sintetiza uma das mais clássicas relações artísticas do nosso país, também mostra que a escrita de Murilo Mendes está realmente em fase de redescobrimento. Para Ler Finnegans Wake, de Dirce Waltrick do Amarante, é mais uma tentativa de criar uma porta de acesso ao livro mais hermético do século XX. Para a História do Português brasileiro, de Vanderci Aguilera tem dois tomos e já deve entrar em listas de adoção para o ano que vem. Armadilhas do Saber, de Cleusa Rios Pinheiro Passos, é mais um dialogo entre a ciência de Freud e arte literária. Não tive contato com a Vingança de Hiléia, de Francisco Foot Hardman, mas tem uma proposta muito interessante. Esse são os demais estudos que completam a lista, apesar de não serem premiados sua importância para as Letras Brasileiras já está gravada.

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