JABUTI 2010 – POESIA

jabutizinho O prêmio Jabuti anunciado dia 1º teve uma grande surpresa em minha opnião na eleição de Passageira em Trânsito de Marina Colassanti como melhor Livro de Poesia. Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário é delicioso. Porém o volume autobiográfico de Armando Freitas Filho era considerado favorito antes mesmo da lista oficial sair, seu prestígio o fez até ser incluído na lista do Portugal Telecom. Mais impressionante que a queda do livro “laranja” na categoria Romance, o belo livro Lar, acabou ficando na Terceira coloção atrás ainda do até então desconhecido Sagração do Alfabeto que tem uma proposta no mínimo desafiadora.

  Marina Colassati que estapassageira2va há algum tempo afastada da Poesia, tem seu Passageira em Trânsito coroado, com certa justiça, ao resgatar uma poesia mais sensorial do que formal. As poesias estão baseadas em sentidos e impressões, normalmente transcorridos na junção do cotidiano com o eu-lírico: “Vem amado/Segura minhas ancas nas tuas mãos/Enquanto as minhas domam/ Seus Joelhos” (Poema quase persa).
Os poemas na maioria curtos são normalmente ambientados em alguma cidade turística revelada no rodapé.  Como o próprio nome diz, a proposta do livro é criar uma poesia de viagem o que muito me lembra o fantástico livro de Murilo Mendes, Tempo Espanhol, em que a poesia serve como meditação artística também. Marina Colssanti vai utilizar as cidades como cenários de suas epifânias: “Alinhado com a Estrela do Norte/ Quantas coisas sabem o relógio Solar/ do real palácio Changdeokgung”(Há Sete Séculos).
O eu-lírico não está necessariamente tentando transmitir suas emoções em estado bruto, mas sim transmitindo impressões as vezes das coisas mais banais como estar em um hotel e olhar pela janela: “No alto do alto/do altíssimo edifício/Um homem/ Se move sobre/ o fato/ do abismo/ escuro inseto no topo da tamareira/sem asas/ porem” (No altíssimo topo). São as pequenas coisas que moldam a poesia de Marina neste livro, e posso dizer que é gostosissímo de ler,  pois parece que nós estamos viajando com ela. Estruturamente falando ele é linear começando no aeroporto e terminado com a volta pra casa. No conjunto dos poemas a maioria segue esse ritmo drummondiano “de casa entre bananeiras”,  alguns poucos porém tem uma força existencial diferente:”A Morte está rondando o condomínio/ um a um cortou o hálito dos velhos/ a vizinha da frente/ a vizinha da frente/ o irritado senhor da casa branca/ o alemão mais adiante” (E ainda é primavera).
sagração
O segundo lugar é uma surpresa ainda mais agradával, Sagração do Alfabeto, é um publicação independente da editora independente mais conhecida do Brasil, a Scortecci.  O fato do livro ter chegado aos 10 melhores do ano, já era uma amostra da qualidade e boa divulgação feita pela autora Leonor Scliar-Cabral. Ter desbancado um dos favoritos é com certeza um feito épico, de uma proposta por si só épica. No exemplar que combina imagem e poesia Leonor faz 22 sonetos celebrando o alfabeto e ainda traduzindo cada um deles para o inglês, francês, espanhol e  hebráico. Trabalho hérculeo que visa explorar a multiplicidade da língua e elo entre os hieroglifos (imagens) e as atuais letras. Infelizmente eu não consegui nenhum exemplar para ler ainda do livro em questão, exatamente por ser uma publicação independente que eu não consegui adquirir, contudo indico esse site que fez uma bela matéria com trechos do livro: http://www.revista.agulha.nom.br/ag67bienalcabralx.htm.
lar2  Pra finalizar o extraordinário livro de poesias Lar, acabou amargurando a terceira colocação, contudo todo o reboliço na poesia e váiras premiações que já participou até então não são em vão. A poesia autobiográfica se confunde com uma prosa, tem uma lineariedade excelente e uma força poética em cada página que nos faz querer ir até o fim em uma tacada só. Quando saiu muito se falou sobre a similariedade entre o compêndio Memórias Inventadas de Manoel de Barros, contudo a existência infântil relatada na primeira parte “Primeira série” é muito mais amarguarnte do que a de Manoel: “A Carteira do colégio não é a caderneta/de dias assinaladas, de faltas, em vermelho/ Nem a de couro com dinheiro curto de menino/ A carteira é a mesa inicial, sou eu gaguejante/ sobre os pés em falso, que nunca calçam certo”(Sem título).Todos os poemas dessa parte não tem título mas tem certa ordem discursiva.
Na segunda parte “Formação” os temas se multiplicam entre família, sexo, cotidiano que constituem a matéria básica: “Primeiro amor fora da família/Primeira língua que mordeu/ deliciosamente morna de desejo” (Bob) e já flertam um pouco com o abstrato imaginativo: “Quem os sonhará/ Quando meu sono/ Não for mais leve ou pesado/ mas de madeia e terra?”.
Na terceira e última parte “Numerais”, a poesia se torna toda metalinguística, a explicar o estilo que está sendo desenvolvido, todos os poemas falam sobre o nascimento da poesia de Armando essa mesma poesia com que ele vai contar sua história, se tornando por tanto um livro de poemas cíclico, à la Joyce.
De resto dou destaque a bela compilação da poesia de Euclides da Cunha, um autor que é, creio eu, muito mais do que Os Sertões como estudos e livros recentes demonstram, além da poesia esse ano tivemos ainda  a publicação de contos e escritos políticos que revelam um escritor muito engajado com os problemas de sua época. Sexo Vegetal de Sergio Medeiros, foi a coisa mais estranha no Jabuti de Poesia, logo na orelha de Myriam Ávila nos informa que ele construir “poesia sem poesia”, ao chegar ao fim do pequeno volume, creio que a sensibilidade deva estar um ou dois planos acima de mim, pois minhas impressões do livro é que são continhos bem chatos que além de não ter poesia não tem nada relacionado a sexo também. Ok! Estamos mais perto dos aforismos de Confúcio do que de Carlos Drummond de Andrade, ou mesmo Haroldo de Campos (a principal referência dessa geração se vocês pensarem bem, mais isso é assunto para outro post), mas isso não é motivo para fazer uma obra tao seca. Há um ou outro poemas que são bem sacados, mas a unidade em si é muito dura para um livro de poesias do século XXI. Creio que sua entrada no Jabuti seja como a Passagem tensa dos Corpos na categoria Romance, mais pela ideia do que pela constituição.
Os outros finalistas foram Soneto Antigo, de Anderson Braga Horta; A Cor da Palavra, Sergio Maranhão; Sob o sol de Sarmancada, de Rui Espinheira Filho, Palavras Cúmplices – Verso & Reverso, de Beatriz Alcântara. Não vou comentar a respeito deste pois não consegui lê-los ainda, e poesia não é facilmente resumivel, contudo uma análise interessaante que queria deixar é que foi muito mais fácil encontrar os ivos da postagem acima de Teoria Literária do que os livros de Poesia. Em outros tempos alguém poderia achar isso estranho, mas isso é mais uma prova de que a poesia está em uma crise não só aqui, mas no mundo inteiro. Tomara que a indicação a finalistas do Jabuti coloque-os na mídia por algum tempo e traga novos leitores, nos do Espanadores deixamos aqui a dica e  eu ainda estou correndo atrás para conhece-los.

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