Golpe de Ar – Fabricio Corsaletti

Golpe-de-Ar “Acordei com uma vontade louca de chupar laranjas. Eu estava em uma dessas ressacas em que você sente o corpo todo anestesiado; a pele, um tecido contínuo, mergulhado no avesso de um lago. Nas mãos e nos pés umas cócegas desapontam; você se retorce, deitado, e não encontra posição satisfatória. A mente vazia é um balão azul azul sobre uma cidade em chamas, e você está no balão e na cidade ao mesmo tempo. A boca está seca e precisa de água. Então você se lembra da água das laranjas.

-Eu quero um laranja agoooraaa! – gritei dando uma gargalhada.

As meninas riram, elas já tinham acordado, e vieram para a sala rir junto comigo.”

O Jabuti foi anunciado na semana passada e dentre os finalistas havia a surpresa do livro de Sergio Viotti, O Boi no Café, entre os dez mais, o que muito me chamou a atenção. Contudo devo confessar que a indicação do livro de Fabrício Corsaletti me pegou ainda mais desprevenido. Primeiro porque eu já tinha esquecido que ele tinha lançado seu primeiro romance ano passado, segundo porque em nenhuma lista de previsões ele era sequer cogitado. Terceiro porque quem leu o livro ou gostou ou odiou, tendo uma ligeira predileção pela segunda alternativa. Bem… apesar da orelha me deixar apreensível com o conteúdo, devo que o livro é muito interessante.

A orelha me deixou apreensível porque lapidava tanto que a construção deste romance era pura poesia, contrastava o banal com o universal, a originalidade era gigantesca, e blá-blá-blá que eu achei que iria ler o Água-Viva da Clarice ou algo em que o hermetismo do momento constituía a densidade da da narrativa. Se você estiver procurando isso beleza, senão você vai ser enganado e sair xingando a história com certeza. Creio que essa situação seja em função de sempre ver o poeta de formação, em sua transição para o romance, como algo que beira ao lirismo. Não é a primeira vez que vejo isso e duvido que seja a ultima. Pra começar acho que a distinção poeta/romancista uma grande lenda, concordo mais quando Mia Couto diz ser “um poeta que escreve em prosa”, mas isso é assunto para um outro post, aqui só vale dizer pra não acreditar nas boas intenções de Alberto Martins quando escreveu a orelha, pra mim é um dos romances mais normais escritos nos últimos anos.

O narrador está em Buenos Aires, fazendo exatamente aquilo que queria fazer lá: Nada! Em dado momento ele deixa a a escapar que já foi um workaholic, trabalhava bastante, e com isso qualquer paulistano já vai se identificar com o narrador e seu desejo fantástico de ficar num cidade desconhecida só vagando, bebendo e não fazendo absolutamente nada que preste! A vida desse narrador se vai mudar drasticamente quando reencontra Lis, uma menina de 19 anos com quem ele cruzou acidentalmente algum tempo antes, que está viajando por Bueno Aires. Apesar de viver isolado e não querer conhecer gente, ele se envolve com ela e com suas 5 amigas que passam a viver com ele, a partir daí sua vida se torna um festival de farras, bebedeiras e muitas resoluções sobre amizade, amor e outras instâncias da vida.

Basicamente o romance é isso, mas é essa simplicidade e leveza são suas principais armas para agradar o leitor. É uma experiência de vida tão verdadeiramente descrita, tão honesta que eu acho impossível sair dessa Buenos Aires de madrugadas coloridas sem um sorriso ou uma vontade imensa de viver uma experiência no mínimo similar. Nesse ponto Fabricio realmente fez um poema gigante, o efeito do livro é muito mais pelo todo do que pelas partes: Os personagens são simples, sem firulas e com muito sentimento. O resultado que importa é o todo.

O narrador conduz todas as bebedeiras, todos os sentimentos, sendo que o mais pulsante é a sua paixonite por Lis que serve de linha narrativa por toda a história. Digo paixonite porque não estamos diante de uma história de amor pulsante que vai levara epifanias e grandes mudanças, estamos diante de um momento e de duas pessoas que se gostam no presente, sem pensar muito no futuro, nem nos problemas, nem dinheiro, nem em nada a não ser sua própria diversão. Elas provavelmente não vão casar, não vão se reencontrar, mas tiveram algo verdadeiro por um breve momento da vida.´Esse é um romance assim como o Sinuca Embaixo da Água da Carol Bensimon, sobre a juventude da geração de 90, em muitos momentos achei que estava vendo American Graffiti ou Curtindo a Vida Adoidado. Sei que já falei isso semana passada, mas eu achei o livro muito divertido. Contudo Bunny Munroe, ainda era um livro pesado e com muita melancolia, aqui é mais uma diversão descompromissada, gostosa.é como… chupar uma laranja depois de uma ressaca. Gosto muito da literatura densa e psicológica, mas de vez em quando é bom variar. Vale a leitura!

2 comentários em “Golpe de Ar – Fabricio Corsaletti

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