Inovações, Inovações, Inovações…

Há alguns anos atrás eu reclamava da nossa literatura contemporânea, o motivo é que tinha acabado de entrar em Letras e percebia que nossa criatividade tinha acabado em Guimarães Rosa. É um erro básico pois tem muita coisa boa por aí, senão não estaríamos fazendo um blog sobre literatura não é? Agora creio que o problema seja outro, existe tanta tentativa de inovação que estamos explodindo de criatividade que até corremos o risco de se perder o verdadeiro foco: A Literatura.
Nos últimos meses tantas ideias boas que se perderam em uma forma equivocada, que ao voltar de Paraty e me deparar com dois casos extremamente opostos eu tinha que enfatizar isso essa semana. Então vamos lá:
paisagem com dromedario Paisagem com dromedário – Carola Saavedra. Devo confessar que peguei esse romance já com algum receio, a voz narrativa me pareceu uma coisa muito estranha: A narradora conta para um rádio-gravador a história, contudo os sons ambientes são transcritos também. Mas eu queria ler algo dela e o estranhamento me deixa um pouco receoso, mas sempre muito excitado para saber o que saiu daí e por incrível que pareça é menos estranho do que a descrição.
Érika está isolada em uma pequena ilha vulcânica, onde há dromedários, e vive em reclusão devido a morte de Karen, contando aos poucos seus sentimentos e o dia-a-dia, a Alex seu melhor amigo, por vezes amante, via o gravador. É um monólogo em que o ambiente as vezes casa com a narração, outras vezes só deixa sua marca para lembrar de como a história está sendo contada. Nada excessivo. A voz dentro do texto se justifica por ela ser uma pessoa que não

consegue expor seus sentimentos no papel, somente conversando com seu interlocutor sem que este interfira e demora até termos toda as peças do quebra-cabeça pois mesmo para o gravador ela vai se soltando lentamente. Mas também é uma tentativa de condensar vários estímulos que a arte pode ter sobre nós. Aqui nós temos uma transcrição (estimulo escrito) de um gravadora (estimulo auditivo) e tanto ela como Alex são artistas visuais. Contudo a diferença entre este livro e o próximo é que a ideia não se sobrepõem a narrativa.
A história narrada tem uma humanidade sombria, Alex e Érika são um par de  artistas plásticos que conhecem uma menina, Karen, ao qual terão um triângulo amoroso até a morte trágica desta. À iminência da morte de Karen, Érika para de falar com ela e a abandona, algo que perseguirá a narradora o romance inteiro. A complexidade do triângulo é muito mais que isso e as atitudes de Erika chegam a ser irracionais ou cruéis em certo ponto, mas com o decorrer da ação que também ocorre com ela na ilha até o seu final vamos ter uma das personagens mais complexas e perfeitas criadas na nossa literatura. Esse não é, ao fim da leitura, um romance sobre a estética, ou sobre a arte, apesar de ter um pouco disso, mas sim sobre uma personagem e os atos que a caracterizam, inclusive a voz narrativa adotada.
Muito bom. Carola falou no último dia da Flip  e em sua literatura a estética das cartas são uma marca característica, assim como suas personagens femininas. Gostei tanto do livro que até peguei um autografo. Agora em
Único Final Feliz para uma história de amor é um acidente –unica final João Paulo Cuenca. Também é parecido com Paraty, mais especificamente como tentar andar depois de um noite de bebedeira em Paraty. Cheio de altos e baixo! Lotado.
Cuenca também estava na Festa Literária da semana passada em evento paralelo para lançar o seu livro. Este é o quinto exemplar da série Amores Expressos da Cia. das Letras, que enviou autores ao redor do globo para escrever sobre Histórias de amor em cidades mundiais. O caso aqui é Tóquio  ele acertou em cheio ao ‘homenagear” a literatura fantástica japonesa, cujos o maior expoente é dentre outros Haruki Murakami. Só que ele exagerou demais na esquisitice.
A história se centra entre um relacionamento desenvolvido entre o filho de um poeta antigo e uma garçonete-russa por qual ele se apaixonou, já temos a descrição do acidente para o qual isso vai convergir, que é lindamente narrado. Cuenca escreve muito, diria que sua imaginação aqui passou muitos limites também. Por que? Vamos complicar essa história. Quem começa a narração é uma boneca de sexo inteligente (um robô basicamente) que o senhor Atso, o pai do narrador, mandou fazer com a aparência da falecida mulher e ainda serve de receptáculo das cinzas da mesma (?). Tudo bem a função dela é questionar os sentimentos humanos. Iulana, a garçonete, é apaixonada pela colega de quarto que e stripper (?) em todo caso o romance começa a dar certo, mas o Senhor Atso, não quer o filho namorando uma gaijin, e ele é dono de uma rede de espionagem chamada Submarino (??) que é comandado pelo diretor da Associação de Fugus, que é um peixinho (???). Junte-se a isso que o senhor Atso, tem aparições para recitar poesia ao filho, alguns capítulos que não se adaptam a história, muito sexo e a oscilação entre algumas situações ridículas criadas pelas roupas de Iulana ou a diferença de tamanho entre eles, e situações de violência extrema como um estupro de quatro páginas e você consegue visualizar qual é o problema.
Mas se até eu estava oscilando entre gostar e não gostar do livro, quando o Gyodai aparece no romance eu decidi que ele tinha errado a mão. Perseguido pelo espectro do pai que recita poesias, Gyodai aparece e o faz crescer. Para quem não lembra segue uma foto.gyodai
Vindo direto do Changeman para aumentar o senhor Atso que começa a destruir Tóquio, mas ele provoca uma destruição em larga escala somente quando tem uma ereção(????????????????????). Você pensa que é simbólico mas não é. Depois o outro personagem vai comprovar a destruição da cidade.
Eu acho que nós compreendemos mal os orientais, a mais ou menos um ano, fizemos o filme Besouro, cuja a ideia, também ótima, era unir o cinema de artes marciais japonesa com a capoeira e deu desastre pelo fato do filme só ter brigas e nenhum sentimento. Quem conhece esse cinema, ou assistiu o Tigre e Dragão, sabe que nenhuma briga é desmotivada, muito pelo contrário, por mais que os personagens voem essas coreografias são expressões de sentimentos. A literatura fantástica japonesa também. Nada é gratuito, tudo tem um significado simbólico e no romance de Cuenca no terço final me parece um festival de estímulos, como um letreiro e neon, que não dizem nada ao leitor, pois ao contrário de Passagem não há sentimento no romance.
Só aconselho para quem queira se divertir um pouco, pois há momentos relativamente engraçados. Mas é muito non-sense!

3 comentários em “Inovações, Inovações, Inovações…

  1. Acebei de terminar o livro do Cuenca
    não achei ruim
    e tenho em minha causa o fato de ter lido o seu livro anterior.

    Rafa, just fiction babe, a cena do Gyodai é meio temebrosa (podemos falar “surreal” para uma adjetivação positiva) mas não compromete todo o romance.
    Num todo gostei do livro.

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