Flip – 3º dia

Sábado foi um dia tranquilo de Flip, se é que isso é humanamente possível, com duas mesas e mais a última aula da oficina literária. Albany, Nova York e outras aldeias, com William Kennedy e Colum McCann começou as atividades do dia. E eu esperava muito mais dessa mesa… Com dois ótimos autores, faltou um pouco de pulso do mediador para poder direcionar melhor a conversa, que rolou naturalmente entre os dois. Mas, infelizmente, muitas vezes, a conversa parecia ser entre amigos, o que prejudicava um pouco a compreensão do público sobre os assuntos debatidos.

Eles disseram muitas coisas interessantes sobre a criação dos seus livros, como, por exemplo, McCann pensou em fazer a cena inicial do seu livro Deixe o grande mundo girar, do equilibrista atravessando as torres do World Trade Center, depois dos atentado de 11 de setembro. Ele disse que o contraste entre as duas cenas e reações dos espectadores nas ruas de dois acontecimentos tão distintos em um mesmo lugar o inspirou. E Kennedy falou um pouco de Ironweed e de sua adaptação para o cinema. Ainda assim, faltou do mediador explorar mais (e interromper um pouco também as conversas mais pessoais dos autores) os assuntos…

Crumb em momento performático
A segunda mesa do dia era A mesa que eu esperava na Flip: A origem do universo, com Robert Crumb e Gilbert Shelton. A única mesa também que comprei para ficar na tenda dos autores. A grande fila faltando mais de uma hora deixava bem claro que não era só eu que esperava anciosamente por Robert Crumb. No geral, eu saí bem satisfeita. Crumb faz aquele personagem de velho-durão-eu-odeio-entrevistas, mas foi generoso e respondeu a todas as perguntas (sem ser monossilábico, como eu imaginava, e claro, abusando do seu humor ferino). Além disso, fez graça com a plateia, fazia piadinhas anti-americanas e depois pedia à
imprensa não publicar aquilo, pois não queria ser morto pela CIA… O personagem que ele encarnava no início começava a sumir… Mas fica a dúvida, ele faz toda essa cena de recluso por ser tímido ou por realmente não gostar desse agito todo em cima dele?
Aliás, um fenômeno interessante de se notar nessa mesa era o grande número de senhorinhas presentes na tenda dos autores. Sabe-se lá o que elas estavam fazendo ali, porém já no meio da entrevista muitas delas saíam desconcertadas. Uma delas, que estava do meu e resistiu até o fim, exclamava a cada oportunidade “Que bobagem” pra cá, “Quanto absurdo” pra lá, enquanto Crumb falava que as brasileiras são boas representações das mulheres crumbianas (sempre bem, digamos, cadeirudas) e de como não se lembrava dos anos 60 porque estava muito doidão nesta épóca.
Shelton: histórias pouco aproveitadas
Crumb também falou um pouco de seu último livro Gênesis, que levou quatro anos para ficar pronto. De início, o autor queria fazer graça com a Bíblia, mas no fim das contas, viu que o material que tinha feito não era bom e resolveu levar a coisa a sério. (mais sobre Gênesis num post mais abaixo)
 
No entanto, mais uma vez tivemos um pequeno problema chamado mediador… Gilbert Shelton foi bem pouco explorado. Claro que a estrela da noite era Crumb… Mas ei! Gilbert Shelton é bem importante nos quadrinhos alternativos! Ele falou um pouco do começo da sua carreira, quando desenhava para jornais de esquerda porque os considerava muito chatos e sérios e os seus desenhos deixavam a coisa um pouco mais leve. Mas quase não conseguiu falar da época mais importante, da Origem do universo dos quadrinhos alternativos: quando ele e Crumb participaram da Zap Comix… Uma grande pena.
 
A coisa degringolou de vez quando a mulher de Crumb, a também quadrinista Aline, subiu ao palco. Aí ficou mesmo um bate bola entre esposa, marido e mediador… E o Shelton lá no canto.
 
No fim da mesa, muitos saíram decepcionados com a entrevista. Esperavam mais de Crumb… Eu, não. Crumb respondeu a todas as perguntas, desenvolveu alguns assuntos. Se era pra esperar mais de alguém, seria do mediador, que podia ter feito perguntas mais interessantes. O que Crumb deixou a desejar, foi na meia horinha de autógrafos… Enquanto isso, Shelton ficou até às 22h assinando até seu último fã ficar feliz.

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