E Deus criou… Robert Crumb!!!

 

genesis Sábado é o dia D da Flip, as ruas estão totalmente apertadas. O pessoal que só pode vir no final de semana já chegou e as grandes estrelas fazem as estruturas da cidade histórica litorânea tremer e esse ano especificamente a Organização havia preparado algumas coisas diferentes a princípio: Um crítico literário debatendo a fé em contraposição a um geneticista polêmico, um debate sobre quadrinhos, o “lançamento” de um dos maiores escritores italianos atuais não muito conhecido por aqui e a Grande Atração da Flip seria o poeta do rock que tinha esgotado seus ingressos em menos de duas horas. O italiano está com dor nas costas e Lou Reed ainda não explicou porque mudou de ideia faltando 28 dias para vir ao Brasil.
Em minha singelíssima opinião foi um fato ótimo pois a Sombra de Lou Reed estava ofuscando a verdadeira estrela dessa festa, um homem estranho, magrinho, que já escreveu barbaridades e em seu último trabalho em com uma proposta ousada e  novamente genial: Robert Crumb. Não gosta de fãs, pessoas ou muito menos de sair. Não escrevia nada já há algum tempo e foi flagrado a dois dias atrás com seu companheiro de atividades na Zap Comix tomando uma boa breja brasileira num bar de Paraty. Crumb é um dos deuses do
 quadrinho e dentro do quadrinho underground é Pai, Filho e Espírito Santo, e é exatamente sobre a religião cristã em que ele molda sua mais nova obra-prima: GÊNESIS.
Ao contrário do que a tirinha que a Conrad colocou no livro pode sugerir (Adão nu em cima de Eva nua pode sugerir algo pra você?), o ponto principal da Graphic não é subverter ou criar uma nova história do Gênesis mais naturalista conforme foi pensado no princípio e sim retratar cada capítulo fielmente as palavras do livro sagrado, como ele próprio define no prefácio é mais um trabalho de ilustração de algo que já existe. Estranho não? Pois nesse mesmo prefácio ele comenta que não crê em nada e não acredita na Santidade do livro, como muitos fãs já desconfiavam. O que nos leva a perguntar o que um quadrinista que tratou o corpo e o sexo de maneira tão visceral poderia estar pensando ao desenhar o Gênesis em um calhamaço de 200 páginas?
Robert, na verdade, conta a história e lança novas luzes sobre o livro. Seu trabalho é justificado como sendo a quadrinização de um livro importantíssimo para a cultura ocidental e em notas ao final do livro podemos ver como ele descobriu várias passagens que remetem a outras lendas de outras culturas. Ele tende a reforçar com o desenho passagens que se perdem na leitura do texto em si como o duelo entre Jacó e um ser divino, que remete a lendas de encruzilhadas onde pode se encontrar o diabo (folclore) ou a briga com semi-deuses na mitologia grega para se tornar mais forte. Todas as informações que ele coloca na graphic resultaram de uma pesquisa minuciosa que ainda revela onde o texto pode ter sido modificado com o passar dos anos.
Na parte gráfica Crumb continua explorando ao máximo cada linha do contorno dos corpos e cada veia que possa pulsar dos personagens, ele cria um Deus com a aparência idosa clássica contudo inova ao criar uma serpente com braços e pernas a princípio, mas quando a serpente engana Eva e a faz comer a maçã Deus sentencia que a partir de agora ela rastejaria para a eternidade então ela perde os membros. Genial! Nas suas notas ao final do livro ele informa “isso é no mínimo implícito”. Acho que em 2000 anos de releituras eu nunca vi alguém sequer supor isso e ele fala que é óbvio!
crumb_genesis
Apesar de Crumb deixar cada repetição (e a Bíblia tem muitas) e cada linhagem no texto, nos desenhos ele coloca um pouco de complexidade ao retratar um Abraão hesitante e Ismael chorando, as faces de terror das personagens diante do Todo-poderoso e várias outros semblantes mais próximos de personagens verídicos remetendo sentimentos que por vezes desafiam o “bom tom” da Igreja católica. O próprio Deus as vezes aparece com cabelos esvoaçantes e poderoso, outras vestido como mulçumano. Pontadas à lá Crumb.
Ele desmembra todo o texto  demonstrando onde ele  pode ter tido interferências de escribas, e desmistifica algumas “lendas” da nossa religião, como o fato de o Gênesis afirmar que existem outros deuses. Outra ideia que parece ser o tom do livro inteiro é a disputa entre o patriarcalismo e matriarcalismo nos prim[ordios. Sempre há disputas familiares para a continuidade do ciclo, e a principal missão do “Senhor” é a continuidade da “semente” por parte dos homens, além da submissão e terror completa a Deus.
Pelas perspectivas que ele apresenta o livro é uma genialidade para os quadrinhos, sendo mais uma inovação apresentada pelo mestre. Se Deus criou Crumb para o bem ou para o mal não se saberá até o final, mas que a continuidade da história não só por ele mas por outros escritores que revisitam as páginas do Antigo e Novo testamento garantem que os textos bíblicos continuem por anos e seus mistérios sejam revisitados sempre.

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